Othmar Schmiderer, André Heller: A Secretária de Hitler

Blind Spot

O temporal de ontem desaconselhava totalmente o intento, mas a intrepidez é minha segunda natureza, e robada não me faltará, de modo que lá estava o vosso escriba instalado em uma cadeira do cinema do CIC para assistir a Im Toten Winkel, Hitlers Sekretárin.

O filme é tão difícil quanto o título, podem acreditar. Existem apenas três ângulos distintos de câmera, a menos que eu tenha perdido algum enquanto dormia, o que não é nada difícil, dada a calma com que a mulher fala, e também devido ao fato de que ela fala alemão. Para ter uma noção dos meus conhecimentos na língua germânica, basta um exemplo: costumo cantar as músicas em alemão utilizando variações sobre os vocábulos Volkswagen e Schoereder.

O ponto que mais pega no filme é o rigor documental, do qual a crueza da montagem seria um dos aspectos, totalmente questionável como argumento para a pobreza da produção. Para assisti-lo, deve-se pensar que o interesse deve ser focado na história que a secretária narra; não se trata de um documentário sobre a secretária de Hitler, o que exige muito esforço para reproduzir, através das palavras dela, quase modulações de tom, um microuniverso bizarro incrustrado em concreto e cercado das bombas soviéticas.

Traudl Junge refere-se ao bunker como “um ponto cego da explosão”, e esse é o tom de toda a narrativa, como se os coadjuvantes estivessem próximos demais para terem visão dos fatos reais. Traudl percebe o contexto quando os eventos do bunker caminham pra seu ocaso, e espera que Hitler, ao ditar seu testamento político, mostre que havia percebido seus erros. E ela se decepciona, pois o ditador mostra-se tão pouco consciente da situação real quanto ela, embora os aspectos sejam distintos.

Depois reavaliei meus quocientes de coragem sob o abrigo de ônibus, após ter decidido que não valia a pena arriscar-me a outra sessão apenas para ver o filme novo do Spielberg, que dizem ser uma bosta. O teto do abrigo estava bem decidido a ir embora, o que provocou algumas sensações contraditórias na minha pessoa, tais como “vou sair correndo na chuva mesmo” ou “vou sentir saudade de sorvete de passas ao rum”; felizmente o ônibus chegou logo, poupando-me de maiores divagações sobre a vida e a morte nas metrópoles assolados pelo vento Sul.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Othmar Schmiderer, André Heller: A Secretária de Hitler

  1. Gloria disse:

    Pô, tentei ontem assistir, mas o filme estava com problemas de alfândega. Dá pra acreditar? Hoje vou tentar ver a Rjiefensthal, vai passar no MAM. festivaldorio.com.br

    Que o frio seja terno contigo, não aguentei e vim para lugares mais cálidos. Bjo

  2. Ox disse:

    Não sabia desse filme, que bom que passei aqui pra ver o que você tem escrito. Vou descobrir se está passando em Curitiba.
    Sobre o seu texto… cara, me arrepiei na hora do sorvete de passas!

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