Barry Unsworth: Auto de Moralidade

Capa

Confesso que tive alguma reação de rejeição ao vocábulo “moralidade” incrustrado no título do romance de Barry Unsworth; apesar disso, sou conhecido pela minha invulgar capacidade de me atirar a roletas russas artefatos culturais. Neste caso, não tive maiores decepções.

Nicholas, o narrador, é um padre que está em constante fuga, e o cenário se desenrola no que seria a Inglaterra em finais da Idade Média. A história, bem apontada pelas orelhas do livros, consiste em um bando de atores mambembes representando versões cada vez mais verdadeiras de um crime ocorrido recentemente na vila onde se hospedam.

Unsworth, por uma lado, consegue prender a atenção, mesmo quando ameaça resvalar com suas descrições de detalhes nas peças interpretadas, o que pode ser interessante para quem sente-se atraído pela vida cotidiana medieval, mas que pode enfastiar pela dúvida imposta à sua veracidade. Por outro lado, a densidade dos personagens é baixa, uma vez que Unsworth não é muito sintético nas descrições que faz, e surgem algumas confusões decorrentes disso, impossibilitando maior agilidade nos diálogos, que acabam presos a uma necessidade de apontamento constante de quem está falando.

O desenvolvimento é correto dentro de um estilo policial, levando o leitor a uma seqüência de fatos e evidências. Ainda que o mistério seja relativamente simples de resolver, surge alguma ansiedade nas últimas páginas, pela proximidade da descoberta. Um pouco de decepção é inevitável com o final feliz da história, ainda mais se tratando da Idade das Trevas, mas o desfecho rápido não poderia dispor do espaço para as discussões filosóficas que permitiriam um final menos fantasioso. Há de se reclamar um pouco do caráter episódico do volume, que não consegue decolar para as gloriosas alturas do efetivo romance, mas seria injustiça com um livro de conteúdo interessante e escrita correta e fluida, algo a se celebrar nos tempos atuais.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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