Dois Filmes

Moloch

Sokurov precisa ser desagradável em cada fotograma de Moloch, e o faz sem maiores cerimônias. A postura excessivamente teatral, faz com que eu não saiba onde colocar minhas mãos ao ver o intérprete minúsculo de Goebbels não achar lugar algum nem para si. Gorman, curiosamente, cabe na tela, como uma babá perigosa.

As mulheres estão inebriadas dentro de uma variante da ressaca que os homens experimentam. Como o Reich de mil anos durou o equivalente a um romance de verão, se tomarmos por analogia um casamento, não é de admirar que tenha alcançado tamanha repercussão ideológica, como sói ocorrer aos ciclos inconclusos, presas dos românticos em sua sanha de visões platônicas.

As imagens são enevoadas e nebulosas, e fico em dúvida se foi deficiência técnica, ou ainda a vontade de nos fazer experimentar a náusea da existência de um moloch, numa explosão de estética agressiva e obsessiva.

Como se fosse insuficiente, Hitler circula pelas salas de pedra emitindo juízos alucinados e vivendo um simulacro de vida coloquial, o que põe uma lente sobre o absurdo da situação. Eva Braun acena para o carro que segue com o hipocondríaco em seu interior, mas os letreiros não escondem que o horror ainda prossegue, finalmente insinuando que este filme pode ser diferente daquele que o mesmo Sokurov filmou sobre o ocaso de Lênin. Como saber?

Spanglish

O mercado latino em ebulição é uma realidade muito poderosa nos Estados Unidos, e Hollywood já busca seus cifrões ali com a mesma sofreguidão de sempre. Paz Vega faz as vezes de sucedâneo de Penélope Cruz, que só faz essas comédias românticas quando efetivamente precisa de dinheiro.

O filme começa esquisito, como se o diretor James L. Brooks efetivamente buscasse uma crítica do modo de vida americano. Os ianques são mostrados em toda a sua grandiosidade consumista e gorda pela figura da esposa do personagem de Adam Sandler, e, se tu olhares com um pouco de cuidado, vai ver que é um desfile de metáforas: o garoto em complemento à masculinidade em confusão e decadência do pai bonzinho e calmo, a glória artística de um passado na sogra alcoólatra, a adolescência burra e “de bom coração” a ser engolida pelos concorrentes estrangeiros, a invasora a ser cooptada pelos valores da sociedade gringa, a esposa como a mulher que luta e luta da forma errada para chegar num lugar que não lhe interessa, e nem sei o que falar da protagonista em sua forma de mãe perfeita e provedora.

Entretanto, não se vai muito longe, e o termo acaba sendo similar ao de Dança Comigo, embora não haja o que comparar nas interpretações de Vega e Lopez, dado que tal habilidade inexiste nesta última. Ainda assim, a fortaleza americana é invadida, mas os valores da família estável e feliz não se perdem, mesmo com a promessa do amor perfeito invadindo seu quintal. O que poderia parecer uma feliz fuga ao final feliz exigido pelo padrão da McComédia Romântica Americana Feliz acaba sendo um embuste, onde a moça mexicana vai embora com a filha. Ainda que esta alcance a felicidade acadêmica, é a loira musculosa, vencedora nas pistas e esposa oficial quem leva o troféu da casa, sim, feliz.

Exercícios podem ser feitos durante a exibição: e que tal se o filme fosse visto do ponto de vista da esposa neurótica? Por exemplo. A direção firme e segura de Brooks não impede que o filme pareça longo demais, mas promove um espetáculo que não compromete.

Sandler continua com aqueles dentões assustadores, e até tenta não ser Adam Sandler, num esforço que me comoveria se eu estivesse ouvindo Gonzaguinha. O problema é que eu estou puto com o engarrafamento pelo jogo do Avaí, e aí fica difícil sentir pena de qualquer pessoa. Pelo menos ele mudou um pouco o cabelo, e é divertido. Quando ele bebe, acaba parecendo o Tony Ramos, e tem uma cena em que ele fica a cara do Wando, mas sem o carisma do famoso colecionador de calcinhas.

E nem vou reclamar de Paz Vega: basta ela ser bonita daquele jeito.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Dois Filmes

  1. Pingback: Top Five: Comédias Românticas « sinestesia

  2. MM disse:

    Assisti ao filme sem surpresas… a hipocrisia americana da “família perfeita” era o esperado. Nem sei pq assisti, acho que ando romântica correndo atrás de uma história de amor nem que seja de mentirinha, mas tem que convencer… E essa passou longe.

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