Monolitos em Philip Roth

Monolito

Fascina-me a capacidade que temos de construir nossos ídolos assim como a velocidade com que eles são destruídos, cedo ou tarde. Às vezes tão tarde que nem chega a acontecer, pelo espaço da vida ter tornado-se pequeno para comportar tal evento. Melhor assim, diriam alguns.

De certa forma, toda pessoa que conhecemos é um monolito. No marco zero da relação, enxergamos o outro como uma unidade, e nos posicionamos em relação a ela. Conforme conhecemos melhor o outro, o posicionamento sofistica-se, ganha matizes, facetas discretas e ângulos imprevisíveis. Entretanto, ainda existe uma unidade do outro lado, diferente do fracionamento tão conhecido de nós mesmos. Vistas de fora, as ações do outro aparecem como manifestações coerentes e bem equilibradas de um ser coeso, ilusão embasada em nossa incapacidade de nos colocarmos no lugar do outro.

Seymour Levov, o Sueco, personagem mais constante do romance Pastoral Americana, de Philip Roth, é um caso extremo de monolito diante dos olhos de Nathan Zuckerman, dublê de Roth em sua incursão ao coração da América.

O Sueco é perfeito, um modelo. Tudo o que ele faz é uma história de perfeição, e todo campo o abastece com vitórias. Este homem perfeito, entretanto, não pode contar com os arredores de sua vida, e o mundo o prova com dezenas de eventos dolorosos. Ele resiste, durante anos, e esconde a dor de forma tão perfeita que mesmo Zuckerman não percebe, até que seja tarde demais.

Com seu cavalo de batalha, um personagem com uma ambigüidade dolorosa, Roth avança pelos campos vastos cheios de gente nas calçadas, invocando uma visão apurada do sonho americano, uma visão de dentro, aquela visão que não conseguimos ter da distância que nos propomos manter.

A segunda fase do conhecimento é a da devastação, que tem algo a ver com a dissipação do mistério, que unge seus escolhidos com uma espécie de magia sedutora e envolvente. Assim que o mistério deixa o ar, os campos em volta do outro tornam-se vazios de apelos, não mais sustentam suas partes como maiores do que a soma delas mesmas.

Roth entra com seus aparatos cruéis no coração do Sueco, e extrai uma amostra de quatrocentas páginas constituída de sofrimento e sensações, que são guardadas e absorvidas sem reclamações pelo herói. Roth é um pouco verborrágico, mas não chega a ser redundante, o que é bastante saudável. Ele consegue estender-se sobre os assuntos, fazendo com que suas percepções do mundo se entranhem no leitor; poucos romancistas contemporâneos conseguem alcançar massa crítica a ponto de conseguir esta façanha.

Não espero grandes reviravoltas até o final deste livro; acredito que Roth já tenha usado-as no princípio, para ganhar embalo. De agora em diante, pressinto mais cascas, da cebola que Roth vê no Sueco, serão retiradas, e nosso herói estará pronto para uma espécie distinta de redenção. Ou não.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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