Jacques Audiard: Sobre Meus Lábios

sssshhh!

Eu não entendo muito bem certas coisas, aliás, várias delas. Na tela do filme eu jurei ter visto nos teus lábios, que não seria a tradução literal de Sur Mes Lèvres, título fecundo em sentidos e gostoso de pronunciar. Se bem que a besta aqui, caso defrontada com “Lìvres”, obviamente pensaria em livros; falsos cognatos cruéis.

Ri bastante enquanto os créditos iniciais passavam. Poderia ser diferente ao vislumbrar um par de nomes divertido como Olivier Gourmet e Olivier Perrier? Parece uma dupla caipiro-francesa de temática gastronômica.

Vamos aos protagonistas, que entram no ringue na categoria “Toscos Perdedores”, mas com características marcantes.

No lado direito do ringue, vemos Carla, secretária de uma firma de construção. Ela é o que podemos descrever como “detentora de beleza exótica”; digamos que ela ficaria excelente naqueles perfis de Orkut que mostram apenas partes do rosto em formato macro. Para completar, ela é surda, o que quase configura um superpoder, além de tímida e esquisita, com pendores maquiavélicos surpreendentes.

No lado esquerdo do ringue, temos Paul, presidiário em condicional. Ele tem aquela cara esquisita de francês, e um bigode que não ajuda em nada no sentido da tal cara esquisita. Possui habilidade inata para atrair encrenca, e manja de jogar garrafas por cima do ombro, o que não é lá muito relevante no roteiro, mas a trama paralela do velho fiscal da liberdade provisória também não é, e nem por isso ninguém vai deixar recados grosseiros na minha secretária eletrônica.

E eles começam. Os golpes se seguem, e o espectador mais atento é capaz de notar que essa é uma comédia romântica, com uma pequena diferença: a carne. Incrível como todo mundo parece efetivamente ter carne neste filme. E não digo isso por conta dos espancamentos constantes que são aplicados a Paul; os personagens agem em ímpetos nervosos, como se estivessem sempre à flor da pele, mesmo sem beijos de novela, e eles quase não choram. Mesmo.

Os créditos finais só vêm quando Carla consegue o que quer, e o que quer do jeito como quer. Paul não poderia simplesmente tê-la. Não, Carla joga-se em fantasias, muda, ousa, envolve-se em tramóias absurdas, provoca ciúmes, e faz besteiras que acabam por fazer Paul vê-la com novos olhos. E não é que funciona?

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Cinema Europeu e marcado , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Jacques Audiard: Sobre Meus Lábios

  1. tatiana disse:

    eu li um post onde você comenta sobre Farnese de Andrade e afirma que este tridimensionaliza Giger. Eu fiz uma monografia comparando esses dois artistas. muito bom confirmar que essa comparação é válida!

  2. Ian disse:

    Oh sim! Esse era o filme que tu falaste que imaginei que fosse deprimente… dá nada! Agora tu já falaste que na verdade trata-se de uma comédia romântica! Preciso observar melhor tudo!
    Abração!

  3. Dani disse:

    oh.
    taí a força da perereca.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s