Palco Giratório: Medeamaterial

medea

Movido pela boa impressão causada pela peça A Escrita de Borges, soberbo e inesperado espetáculo que me foi indicado no improvável espaço de eventos do Xópis Itaguaçu, fui assistir a esta outra peça do Palco Giratório, promovido pelo SESC. Arrastei pessoas junto, é claro, sem suspeitar de que pudesse se encontrar diante de uma manifestação do Inacreditável Espírito da Robada. Sem “u”, porque “roubada” é um adjetivo bem legal.

Medéia realmente não consta entre os meus prediletos, e tragédia grega não é exatamente minha especialidade nos palcos. E podem perguntar se existe efetivamente uma especialidade a que eu me dedique; calmamente responderei com meneios de cabeça e outros signos de negação subjetiva.

O ponto é que eu nem teria muito porque gostar de Medéia. Aquela papagaiada toda de mulher traída sempre esteve distante das minhas divagações existenciais, e ela, a meu ver, liqüida a prole muito tarde, mas que autoridade eu envergo que possa questionar os antigos escritores?

O TAC, por sua vez, continua com todos os seus defeitos intrínsecos. Suas cadeiras rangem terrivelmente a qualquer leve movimento que se faça. O espectador deve permanecer imóvel como algum daqueles manés que se pintam todos, e que sobem em pedestais no calçadão da Felipe Schimidt, sob pena de causar uivos oriundos das molas e demais dispositivos arcaicos localizados no universo particular de cada cadeira no teatro.

O público, ah, o público. O preço baixo dos eventos do Palco Giratório e os incentivos de professores desprovidos de noção levam uma patuléia apavorante aos teatros, uma gurizada que se considera em alta posição no universo da arte dramática. Esta pivetada se considera no direito de fazer intervenções na peça em andamento, levando muitos dos presentes no teatro a assumirem seus ímpetos homicidas mais secretos.

Diante deste panorama, ficaria difícil para uma peça, mesmo que interessante, ganhar o público. E Medeamaterial não consegue. Um certo amor à síntese extirpa pedaços importantes do texto original, e o que resta acaba por se repetir, uma idéia única, que entedia, apesar da curta duração do espetáculo.

Nesses tempos de separação cotidiana e trivial, o impacto de vinganças sangrentas como a da feiticeira Medéia é abafado e irrelevante.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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