Tassos Boulmetis: Politiki Kouzina

A-touch-of-Spice
Existe uma tendência à condescendência quando entramos em uma sala de cinema para assistir a um filme originado em algum lugar fora do eixo Hollywood-França, semelhante àquela que alguns experimentam ao assistir a uma para-olimpíada. O senso crítico passa para uma reduzida, e as concessões se espalham na linha de percepção.

A política da “peninha” é executada impunentemente mundo afora, e foi nisso que eu pensava enquanto iniciava “O Tempero da Vida”.

Os créditos do filme são passados sobre uma tela onde o fundo mostra galáxias e constelações, com um guarda-chuva vermelho navegando. O efeito é de gosto duvidoso, e provavelmente vou receber tomates etnicamente corretos se eu disser que parece coisa do Hans Donner.

O diabo é que parece. Mais tarde, o mesmo guarda-chuva vai voar a partir de um molhe. Ainda que não chegue a estragar a bela movimentação do navio por trás do farol, em contraponto ao jovem casal que observa o o vôo inusitado, poderia ser executado de forma mais sutil, sem prejuízo para a percepção do desejo expressivo do diretor.

Quando o guarda-chuva escarlate aparece anos mais tarde, num enterro, a presença ainda é um tanto forçada, mas válida. Aliás, “guarda-chuva escarlate” parece o codinome de algum super-herói que age em dias de chuva de canivetes e congêneres.

A reconstituiçõo de costumes é um dos pontos interessantes do filme. Neste ponto, ele é absolutamente superior a Casamento Grego, que se esbalda em clichês fracos e chatos. Tempero da Vida mostra a vida familiar no limiar da mistura turca e grega, dentro de um ambiente de tensão política, o que dá vários momentos de observação da natureza humana.

O ápice do filme ocorre quando o pai de Fanis recorda os piores cinco minutos da vida dele, quando ele esteve em dúvida quanto ao amor por Istambul, e o que faria para manter-se ali. O diálogo é econômico sem deixar de ser um crescendo, e a simplicidade da captação completa um cena belíssima.

No outro extremo temos a cena em que Fanis visita a UTI, e que poderia ser soberba. Entretanto, a construção do personagem do avô é falha e forçada, e acaba culminando em uma cena previsível. Parece que o diretor escolheu aquele momento para o momento da garantia do choro, apelando para uma seqüência fraca.

As imagens são bonitas, principalmente quando o diretor de fotografia mantém-se dentro de suas limitações técnicas. Os enquadramentos são bons, e eu fico pensando porque diabos eles invocam de queimar o filme com aquelas montagens vagabundas das fotos de viagem do tio de Panis.

No nível dos acontecimentos, os mais interessantes são aqueles que mostram uma visão folclórica da família turco-grega. A forma como as esposas surgem, a ligação com os temperos, tudo isso diverte e instrui, e as interpretações não comprometem. O problema ocorre com o ator que faz Fanis; o cara não consegue soar espontâneo em momento algum, e aí temos novamente o paralelo com as novelas brasileiras: o núcleo sério é sempre um saco, inverossímil e chato. Passei o filme todo vendo o Murilo Benício no lugar do cara, e isso foi horrível.

A idéia, que resiste depois que os créditos incompreensíveis passam, é a que o REM explicita em Stand. O migrante está fadado a uma tristeza eterna e persistente, a de não pertencer. “Não pertencer” é uma das coisas mais doídas que existe.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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