Harold Budd: Avalon Sutra

Avalon Sutra

A impressão primeira deixada pela audição de Avalon Sutra, último trabalho de Harold Budd, é a de que sua persona artística foi deixada a vagar em um substrato de musicalidades fluidas e instrumentos diversos.

Ao ouvir suas divagações quase místicas, lembro-me das palavras de Nietszche, que pregava que vivemos hoje uma temporalidade acelerada, que se opõe ao ritmo necessário à cultura. o tempo da filosofia não é o da máquina, mas o do animal, que lentamente rumina seu alimento, e, macacos escovem seu bigode se ele não estava cavalgando uma percepção plena quando pensou nisso.

Budd dá à sua música este tempo. Suas peças, embora curtas, exigem que paremos o que estamos fazendo, e nos dediquemos a sorver sua beleza gotejada, espargida, vaporizada pelo ar.

Diversos instrumentos se apresentam, sejam cordas cortantes, sejam metais que inflam as percepções, sejam teclas que cintilam sobre as camas aveludadas. O tom geral é de uma melancolia daquele que alcançou uma visão nova e despreocupada do que o atinge do mundo. Ou não. Seja o “ser atingido”, seja o “ter alcançado”. Se existem repetições nas dissonâncias, ou mesmo nos temas, não vale a pena lembrar, assim como não vale muito se dedicar à homenagem dos amigos na reconstrução de uma das canções em um monstro de sessenta e nove minutos.

Falar muito de Avalon Sutra seria deixá-lo escapar por entre os dedos; esqueça, escute.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Harold Budd: Avalon Sutra

  1. MM disse:

    Finalmente você escreveu sobre… e valeu a pena. Você me iniciou nessa obra de arte que é Avalon e eu esperava curiosa um olhar seu.
    Da sua exposição dois momentos me retratam:
    … exigem que paremos o que estamos fazendo, e nos dediquemos a sorver sua beleza gotejada, espargida, vaporizada pelo ar.
    …Falar muito de Avalon Sutra seria deixá-lo escapar por entre os dedos; esqueça, escute.
    Ao ouví-lo não sinto melancolia… sinto paz

  2. fofolete disse:

    confesso que fiquei com vontade de ouvir, mesmo não conhecendo…
    e o Nietzsche vem me perseguindo ultimamente…

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