John Duigan: Head In The Clouds

ugh.

São vinte e duas e vinte e seis minutos segundo o relógio desta mastigadora de bits aqui. Lá fora, chove de um jeito que faz parecer que a indolência do clima fará com que dure mais uma eternidade. Amanhã terei de estar no trampo bem cedo, para resolver pepinos que eu ainda não conheço, mas de quais sei que não terei saudade até que ocorra algo pior, do tipo “ser atacado por um bando de hienas banguelas” ou “arremessado de cima de uma árvore podre dentro de uma concavidade rochosa cheia de musgo e cocô de passarinho”. Passei pela sala, e as três mulheres da casa assistem ao capítulo da novela das oito, escrita pela anormal da Glória Perez, onde o Thiago Lacerda, vilão malvado entrega seu lado humano, e pede um arrego na lista de malvadezas dele.

Sim, este é o clima perfeito para traçar uma análise justa de Head In The Clouds. Obviamente, o adaptador brasileiro já teve as manhas de começar a devastar o filme pela tradução do título, que eu obviamente apaguei de minha memória, tamanho o asco que provocou em mim. Apesar do esforço do adaptador, ainda há o que falar sobre esta pequena tragédia do cinema.

Algumas pistas surgem já no cartaz da empreitada, mostrando os três protagonistas em pose épica, algo bem apropriado para nossos tempos nostálgicos, onde uma multidão quer devorar os produtos da grandiosidade inócua que enche as prateleiras de romances das locadoras e a programação dos canais tipo Halmark nas tevês a cabo. Não escapo demais à síntese quando penso neste tipo de filme como o equivalente filmado de livros do estilo Sabrina.

Vamos à análise do trio de protagonistas.

ugh.

Primeiro, temos Charlize Theron, altamente elogiada pelo seu desempenho em Monster, fato do qual encontro paralelo imediato nos personagens de loucos e destrambelhados incompreendidos de novelas da Globo, papéis que granjeiam automaticamente louros de alta capacidade dramática aos poltrões que os executam. Theron teve seu ápice dramático em Doce Novembro, comédia mela-cueca onde ela mostrou a que veio, e ficou por isso mesmo. Neste filme, ela demonstra comportamentos quânticos, o que poderia ser justificado pelo temperamento explosivo da personagem dela, mas até minha avé manjaria que Theron é uma tradicional atriz de papel único, e que o diretor tem uma mão extremamente frouxa.

ugh.

Segundo, temos Penélope Cruz, teoricamente a mais capacitada do trio, o que significa que ela saberá mancar muito bem, e continuará podendo ter aquele inglês sofrível, pois ela veio da Espanha no filme. Quão apropriado! Ela banca, para variar, aquela moça altamente fagocitável que oscila entre esperteza e ingenuidade. A porca torce o rabo quando se constata que Cruz não é mais nenhuma mocinha, e que precisa de um novo nicho logo.

ugh.

Fechando o grupo, temos Stuart Townsend, que é um mistério para mim: feio, chato, sem graça, e fica mal em quase tudo que veste. O que diabos ele pode fazer por um espectador além de fazer este escriba sentir-se bem por ser uma pessoa qualquer, e não Stuart Townsend? Para exemplificar, e não ficar nas abstrações detonadoras, basta dizer que, na melhor passagem do filme, Townsend consegue um nível de expressividade semelhante ao de Jim Carrey, e usando os mesmos expedientes cheios de caretas deste último.

O roteiro contrapõem um amor incondicional ao idealismo pulsante, e resulta em ondas de puro tédio, extraindo impressionantes bocejos da platéia, que tem seu sono incomodado por uma ou outra piada fraca perdida entre os diálogos recheados de clichês. O que poderia ser um rico estofo histórico para um grande romance acaba sendo apenas uma seqüência de desculpas burocráticas para o casal não alcançar a felicidade. As cenas de sexo são tão ultrajantes que pensei em atirar ao chão meu distintivo do Rotary!

E, caramba, sinto-me bem mais leve. Acho que já posso publicar isto, e ir dormir em paz.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para John Duigan: Head In The Clouds

  1. Carol disse:

    que chova canivetes e sapos então!
    eu estava com saudades de te ler!

  2. Ox disse:

    Totalmente tragédia! Faltou luz? Bûfff!
    Filme fraco! Viva a chuva!!!Só não sei como você conseguiu escrever sobre isso. Ah, mas sempre é divertido ler sua críticas cruéis neste espaço.
    Ah não seja tão mal, até que a tradução do título tava certinha, ou pelo menos quase. Pior quando eles desvirtuam total…

  3. Chris disse:

    Coooooool.

    Que chova mais em Florianópolis.

  4. Ulisses Munarim disse:

    E ainda faltou luz no meio da projeção…

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