Death Cab For Cutie: Plans

Consegues ver o bêbado deitado?

Eles quase enganam na faixa de abertura, pelo jeito bizarro como Ben Gibbard pronuncia “arms” com um erre arrastado ao ponto de eu ter de me segurar para não soltar uma infâmia. Entretanto, o Death Cab For Cutie continua sendo a mesma banda americana que sonhava em ter nascido inglesa. Felizmente, eles falam um idioma bem próximo do inglês, e, portanto, conseguem o intento com mais facilidade do que os candidatos brasileiros.

E, diabos, os garotos parecem ter se encontrado. O irregular Transatlanticism me deixou um pouco preocupado, mas este Plans saiu redondão e gostoso. Exemplo? A segunda faixa, Soul Meets Body, que parece ter sido inspirada em Midnight Oil, tem o papapa mais criativo deste ano, daqueles que te pegam de surpresa pelo colarinho, e te arrastam rua afora. Pode arquivar sob a etiqueta “músicas deliciosas para ouvir no carro”.

Isso quer dizer, também, que quem não curtia a ladainha depressiva de seriado coxinha da Sony, vai continuar não gostando. Gibbard está bem, na fórmula que o consagrou, e eu chego a pensar que era a hora dele fazer alguma outra coisa da vida. Plans seria um belo epitáfio, e não correríamos o risco de ver autoclones sendo gestados no futuro.

Devaneios à parte, Summer Skin tem uma batida marcial, e exemplifica o estilo dos caras: instrumentação limitada ao apropriado, com os pianos, baixos e guitarras corretos, e letras bucólicas sobre a existência urbana.

Different Names for The Same Thing é dividida em duas partes, sendo que a primeira parece ter sido tirado de uma sessão de gravação de Green, subestimado álbum do REM. A mudança de dinâmica fica muito legal na passagem para a segunda parte, e o produtor teve as manhas de afastar o vocal, com umas jogadas bem legais de microfonagem.

Um dos ápices de fofura do álbum é a delicada pérola I Will Follow You Into The Dark, e o título explicita com clareza o conteúdo da letra. Como o escriba aqui tem as manhas de sempre se comover com mortes, é claro que ela bate forte. Repare na habilidade de Gibbard para encaixar nomes de lugares e palavras esquisitas, o que faz com que a canção soe direto dentro do, hum, coração.

O sentimento geral sobre o álbum é de que ele chega na hora certa para o Verão, e, sim, isso pode soar estranho até que eu esclareça a importância que a brisa fria de Floripa tem no plano da curtição de um bom dia de praia.

Eu vou pular Your Heart Is An Empty Room pela literalidade dela, apesar de muito bonita. Crooked Teeth é outra daquelas de se ouvir com a janela do carro aberta, abençoado por um Sol excelente. What Sarah Said tem um pianão cheio de teclas, e consegue, mais uma ver, comover o ogro tosco que escreve neste espaço aqui; a harmonia é delicada, e se mantém por dias, surgindo toda vez que eu olho para as faixas brancas se movendo no asfalto.

Em Brothers On A Hotel Bed, o piano volta a ficar esparso, o que é compensado pelos barulhos ocasionais, e uma atmosfera carregada, como se pessoas estivessem pela sala em formas espectrais. E Stable Song é uma nova versão de um lado b do passado deles.

É, seria uma beleza de epitáfio. E uma pena.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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