Hirokazu Koreeda: Dare Mo Shiranai

fog

Floripa hoje resolveu anoitecer dissonante. Executando notas perdidas diante da janela, percebo isso, dado que tanto a névoa sobre as casas quer acompanhar as notas de sonoridade difícil que parecem, por assim dizer, afinadas.

As folhas da amendoeira cresceram como loucas, e já mostram pistas de como serão quando estiverem grandes. Serão outras, e fico feliz de não lembrar direito como elas eram na estação passada. Se lembrasse, mesmo que fosse um devaneio, seria dar pouco valor à beleza das vindouras.

Dare

O Japão que surge nos primeiros momentos de Ninguém Pode Saber é aquele do outro lado, uma representação forte demais do absurdo, direto nas fuças, sem defesa. O Japão que vence tinha de ter um lado que perde, mas, diabos, porque tinha de ser tanto assim?

Num pequeno apartamento eles se acomodam, clandestinos, regidos por sua mãe maluca, uma criatura infantilóide que apenas a hipérbole do nosso sistema econômico poderia ter criado. Ela se embala nas fantasias do dia seguinte, de um futuro onde tudo é perspectiva, pois ela sabe que conseguirá.

Enquanto isso, quatro moleques vivem num apartamento apertado, por conta. Akira, violinista solo, faz o que pode. E faz o que quer, partindo do modelo de garoto perfeito e bem educado, conformado com seu papel, para envergar as rebeldias furadas de uma adolescência fugaz, que culmina em uma trip de teimosia que remete a personagens negros de Faulkner, onde a insistência dogmática se alimenta das carcaçaas místicas que se amontoam à luz do dia.

Existem diversas formas de assistir a Ninguém Pode Saber, e minha grande vontade foi seguir o ímpeto egocêntrico de Akira, que se entrega a governar de forma desastrada seu reino legado com o que poderíamos chamar bondosamente de desleixo, na falta de vontade de pronunciar outras palavras mais duras.

Ainda que a Grande Merda Universal esteja presente desde os primeiros instantes da película, que usa o recurso de extrair um trecho do seu próprio final para alimentar seu princípio, sofre-se de uma tensão imensa conforme o filme roda, pois a Grande Merda Universal prometida não se abate de vez sobre os protagonistas, e serão duas horas assim, vendo o Grande Fosso Dramático se formar.

Os personagens são sonâmbulos vagando em um universo granulado. Ainda que Akira possa passear antes de todos os outros, suas caminhadas mal assumem a condição física, e ele é tão restringido quanto seus irmãos. O mundo de seus pais, espalhados em empregos insignificantes, não tem perspectivas maiores do que o de qualquer outro na mesma cidade que se desmancha.

Reparei em um clima constante daquelas câmeras amadoras japonesas, daqueles que aparecem nas cenas patéticas que Fausto Silva adora mostrar nas tardes de domingo, e prefiro nem pensar nas tardes de domingo; a nostalgia me enfastia.

Ninguém Pode Saber esmaga o espectador em uma primeira pessoa, distante de estéticas limpinhas. Sem dúvida, um registro delicado e correto.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Hirokazu Koreeda: Dare Mo Shiranai

  1. Carol disse:

    assisti este filme num cinema pequeno, numa noite congelante em montreal. fui sozinha, ainda bem.
    saí do cinema sorrindo, ou chorando, que dá no mesmo.

  2. Spider-Butt disse:

    Não é uma critica construtiva , mas:
    “Sonífera ilha , descança meu olhooosss…”

    hauhauhauh

  3. Turnes disse:

    Bela resenha Gilvas
    elogios ao seu estilo paradoxal
    meio cético, muito emocional
    segue-se o fluxo das sensações que a coisa te causa sem perder a mirada crítica, a antena com o mundo.
    venho notando a tendência em procurar entender o coração das personagens e o invisível da obra, que torna o olhar mais poético que técnico.
    Abraços

  4. Juquinha disse:

    Tão esmagador é o desejo estúpido e
    a esperan̤a tola Рfruto podre de uma
    ditadura estado-unidense-americanóide –
    de que algo mágico acontecerá, as crianças
    serão salvas, e todos serão felizes…

    ***

    lindo…. lindo… amei a tua resenha…
    mas tive apreço especial pela caçulinha,
    que, deveras verdade ou não, levei preciosos
    segundo para entender que havia perecido
    feito flor de pessegueiro…

    bah!

    Beijim!!!
    (\_(\
    (=’ -‘)
    (,(“)(“)

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