Joaquín Oristrell: Inconscientes

Estranha, nas primeiras cenas, o tom picaresco das cenas, e a caracterização for english to see dos figurinos e da atitude reinante numa década de 1910 onde a Espanha ainda possuía um rei. A Europa passava pela Primeira Guerra, mas ela é vista apenas de relance; são mais caras ao roteirista as citações livrescas e chistes socio-políticos através de um viés nacional.

Uma paródia do estilo policial se desenha a medida que os casos contidos na tese de León vão sendo descobertos, e seu ápice é de uma hilariedade incontrolável, quando o vilão descobre-se perpetuador de todas as perfídias possíveis pela moral da época. Ele culpa o Doutor Freud, que descortinou a tragédia sobre a qual se erigia sua vida mentirosa, e seu fim é coerente com a proposta do roteiro: divertidíssimo!

As citações eruditas são aplicadas de forma bruta, enquanto as referências históricas o são de forma quase delicada; minhas gargalhadas são justas, dando-lhes doses igualitárias de constrangimento ao restante da platéia.

Certos aspectos sutis podem ser percebidos nesta comédia de talhe truculento. Embora Salvador, o homem de hábitos conservadores e capilaridade facial privilegiada, seja óbvio, Alma, a sua ingênua cunhada, consegue disfarçar seu próprio conservadorismo por trás de uma fachada de adoradora das idéias de Freud, o que acaba se revelando como devoção ao marido. Fêmea prática, de recursos que conhece, Alma carrega seu títere Salvador através de uma galeria de tipos satíricos com o que poderíamos chamar de “intuição”.

Entretanto, Inconscientes não é para se desfiar delicadezas. Piadas toscas de cunho sexual são largadas em meio a tiradas de pedantismo inafiançável. O artificialismo de certos enquadramentos não ajuda, assim como as passagens de cena com aquela vinheta imitando uma película de filme. Boas tiradas de estilo mais sofisticado são as da segunda paciente de León, a criatura arrepiada do manicômio, mas o que realmente faz valer o filme é o amarramento do roteiro, que se faz presente a partir do segundo quarto da película, e só faz crescer até o final, proporcionando um filme que merece ser assistido mais do que uma vez.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Joaquín Oristrell: Inconscientes

  1. Helen disse:

    Vale a pena assistir, dá para rir…
    Agora, que Freud se contorceu todo no caixão, ah, não tenho a menor dúvida!!!!

  2. Dani disse:

    oh, que bela resenha.
    “altos massa” o filmeco 😉

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