Walter Salles: Dark Water

confessa, isso arrepia

O filão dos filmes de suspense sobrenatural é um nicho de espectadores bastante específicos, de modo que os narizes torcidos ao trabalho de Walter Salles em Dark Water precisam de análise bastante acurada para escaparem ao espectro da injustiça.

A primeira impressão deixada ao assistir-se a película é a de que não se pode chamar Salles de incompetente, ao menos no que tange ao aspecto técnico da direção. Quem aprecia o gênero vai encontrar tudo certinho, todos os elementos necessários:
– Uma ilha sinistra, com o bônus do teleférico vertiginoso, na abertura e no final;
– Um apartamento sinistro, providenciado pela situação bem pouco confortável dos ianques brancos de classe média baixa despencando;
– Um zelador tosco e mal humorado;
– Um apartamento no penúltimo andar;
– Um vizinho desaparecido russo;
– Chuva, meu deus, chuva a dar com o pau, que só pára quando surge a revelação do mistério;
– Alívio nos momentos finais para então ferrar com tudo, um sintoma do terror moderno, onde a segurança nunca é real;
– Bonecas mergulhadas em água suja, o que sempre dá um efeito maravilhoso;
– Mãe bêbada e antecedentes que transformam a protagonista em pivô de uma série de patologias mentais pavorosas.

Salles tem as manhas de manter a tensão durante todo o filme, sem muita necessidade de apoio da trilha, que é apenas correta. Se, em certos momentos, há exagero e obviedade, há mais de se culpar o produtor, sequioso por agradar a estúpida platéia de blockbusters gringos, do que a capacidade do cineasta brasileiro. As pistas deixadas raramente são sutis, e dá vontade de bater no vendedor abichalhado de imóveis quando ele insiste em explicar que vidro da banheira é inquebrável, deixando claro, duh, que alguém vai se ferrar naquela água. As reações do zelador também não ajudam em nada.

O que não deixa de aparecer é a famosa pieguice de Salles. Vários sintomas apontam a origem nipônica do filme, da mesma safra de O Chamado, como a disposição peculiar do apartamento, os cabelos escuros de todo o elenco, a situação econômica, as restrições da mulher. Entretanto, a menina, vítima vingativa, é um nêmese devastador em O Chamado, sem a menor chama interior de delicadeza, tomada pela irracionalidade da vingança a qualquer custo. Em Dark Water, a menina também é um monstro descontrolado, uma criatura que rompe todas as defesas, sem mira em sua angústia destrutiva, mas Salles lhe enxertou um elemento de delicadeza. Poderia resultar esquisito, mas acaba ampliando as possibilidades do horror na existência da mãe e de sua filha.

Vale ressaltar o conjunto correto de atuações, cujo centro emana da fofíssima criança que interpreta Ceci, e via terminar na discreta participação do meu ídolo Tim Roth. O passado da personagem de Connely, deixado apenas como rascunho para as acusações do marido, e a postura efetivamente despirocada dela, são elementos felizes, que mantém o espectador mais dedicado um pouco distante do desfecho relativamente óbvio. Sim, você precisa se esforçar para se arrepiar e ter medo nesse tipo de filme, ainda mais quando se é um velho espectador do estilo.

Agora, se você é um daqueles chatos que adora prestar atenção em erros de continuidade, ou daqueles que adora apontar clichês baixos, desista: Dark Water é feito para pessoas que vão ao cinema para se divertir. Como a mocinha da primeira fila, que Salles fez chorar como uma condenada com as cenas finais da menininha se despedindo da mãe. Confesso que surgiu um projeto de lágrima no canto do meu olho. Sério.

***

Ah, alguém me explica porque diabos não se traduz, no Brasil, o título de um filme gringo justamente agora que eles estão sendo feitos por brasileiros?

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Cinema Gringo e marcado , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Walter Salles: Dark Water

  1. ian disse:

    lixo de filme.

    (pronto, falei)

  2. Jefferson disse:

    Fiquei com vontade de ver… primeira crítica que é só mais ou menos cínica que eu leio do Gilvas. Já saiu emn DVD ou está passando em algum lugar da cidade?

  3. Fran. disse:

    ah, e, as duas crianças principais eram lindas!
    o que eram aqueles olhares e cabelos?

  4. Fran disse:

    eu e o Fábio vimos.

    mas não foi tão fácil: “-eu adoro filmes de medo, vai!”

    : )
    :*

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s