Régis Wargnier: Est Ouest

est ouest

Certa vez li uma reportagem sobre o sucesso do Paulo Coelho entre os franceses, e lembro claramente de um comentário de algum especialista em literatura: “o mau gosto dos franceses é igual ao mau gosto de qualquer pessoa em qualquer país”.

De algum modo, as palavras dele ecoam em mim quase toda vez que estou diante de uma produção francesa atual. “Altos” e “baixos” não descrevem exatamente o conteúdo dos filmes, porque sempre há algo a louvar-se e sempre há o que se xingar.

Est-Ouest pesa mais para o lado da ruindade, não chegando a ser podre, mas mantendo uma distância segura do que se poderia chamar de cinema vigoroso.

O primeiro ponto a anotar é a abertura excessivamente pomposa, carregada de cordas a imagem do mar, oscilando entre nos devorar e ser o sustentáculo do barco que nos leva ao desconhecido. Efeito estranho.

Logo depois é Sandrine Bonnaire que nos marca com seu sorriso de esquilo maníaco. Chega a assustar em alguns momentos.

No roteiro em si, furos irritantes de continuidade, que impedem-no de conquistar aquela unidade orgânica que faz os filmes históricos efetivamente vivos. Outro aspecto ruim é que as personagens paralelas nunca chegam a decolar, e suas personalidades são rasas como uma poça de tensão superficial sobre uma chapa de inox. Mal estamos nos acostumando a uma realidade, e o editor corta a cena para jogar-nos em acontecimentos díspares daqueles vistos antes.

Parece que o diretor achou uma baita idéia, e a diáspora russa realmente é um boa idéia. Imagine mergulhar aqueles pedantezinhos da europa ocidental em uma realidade crua de um sonho aloprado como o comunismo? “Traga-me uma estante grande para meus Ursos de Ouro!”.

Entretanto, o gaudério se empolga, e troca os pés pelas mãos. A visão dos comunistas, maniqueísta e pobre, é lançada como um enorme sorvete de hortelã na testa do espectador, e diabos número um, eu era o espectador, e, diabos número dois, eu odeio sorvete de hortelã assim como odeio soviéticos malvadões imersos em paranóia. Mesmo que isso seja verdade, o que é bem provável, um bom cineasta sabe extrair o nível certo de emputecimento produtivo do cara sentado ali na poltrona.

Enquanto isso, eu pensava em quanto a Catherine Deneuve virou uma instituição, e em que isso deveria fazer tomar vergonha, e sair das telas, sob pena de mais interpretações burocráticas como a deste filme.

Curiosamente, saí do filme com uma tensão cinética estranha, uma vontade de perceber cena e enquadramento em cada evento dali do estacionamento até em casa. Mas dissociei as coisas antes disso; Est-Ouest continua um filme meia-boca na minha cabeça, e eu preciso usar mais minha câmera.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Cinema Europeu e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Régis Wargnier: Est Ouest

  1. Mirian disse:

    Opaa! Percebo que retornas…
    E isso é bom!

  2. chiquinha disse:

    O que é um pto marrom no fundo do mar?

  3. Ox disse:

    Tá difícil chegar perto do computa. Hoje consegui!!
    Saudades dos seus textos, das suas críticas mais que malvadas – mas muito verdadeiras e bem humoradas!
    Agora que sei o lado podre do filme fiquei louco pra assisti-lo. Lado podre… talvez o filme inteiro seja uma coisa meio assim, mais ou menos; ah, só sei que fiquei com vontade de assisti-lo mesmo assim:)
    Abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s