Martin Campbell: A Lenda do Zorro

fala pro boneco!

Deve ter sido a excessiva expectativa, só pode. Ter sido exposto a duas bombas consecutivas em uma única noite acabou por me fazer perder o centro, e me vejo diante do teclado incapaz de enviar ao âmago de A Lenda do Zorro os devidos impropérios.

Outros diriam que é a idade, e eu aceitaria, humilde, e tentaria recuperar minha auto-estima.

Eu não começaria por Antonio Banderas, embora possa parecer bem divertido chutar o antigo queridinho do Almodóvar, e ícone macho latino de boa meia dúzia de moçoilas crescidas, daquelas que já trocaram o Latitude pela Videoteca.

Não, é mais fácil começar por Catherine Zeta-Jones. Não que ela estivesse obviamente ruim; com as coreografias e os decotes da nobreza latifundiária de fins do século dezenove, ela nem precisaria se apoiar no papel de mãe para que eventuais críticos esquecessem que ela veio ao filme para atuar. Aparenta, entretanto, que a moça estava fazendo algum bico com a Revlon paralelamente às filmagens. Que mais poderia explicar o fato dela sempre estar fazendo pose, mesmo nas cenas mais excruciantes, como se fosse um súcubo workaholic.

A história é aquela mentirada divertida de cinema-pipoca, com tanto fundamento quanto um poste num banhado. O fato de se comemorar a anexação da Califórnia explicaria muito o atual governo do lugar, e a guerra civil subseqüente, devidamente polarizada no esquema de bonzinhos e malvadinhos. O esquema de inglês falado com sotaque espanhol entrega tudo; gente já fez pior com melhores intenções, e nem por isso eu vou falar pior de Zorro do que de Frida, outra embromação empurrada goela abaixo dos povos latinos pelo irmão mimado ianque.

O Zorro de Banderas ainda ensaia pequenas incursões no humor tosco latino, mas logo os chistes se encaixam todos nas planilhas de clichês engraçadinhos da grande linha de produção de ação, tão reconhecível quanto os inícios pomposos seguidos da reflexão com perda. E o pior é que eu consigo rir de algumas piadas, principalmente quando envolvem o cavalo, sintomaticamente o centro da maior parte das cenas vagamente inteligentes.

Momentos de reflexão? Oh, sim, eles existem; até uma música do É O Tchan deve ter momentos reflexivos, é só procurar com boa vontade. Em Zorro, surgem dois deles. O primeiro deles se refere à inversão cronológica da criação dos personagens, o que, algumas vezes, nos faz pensar em Zorro como uma versão lo-fi chicana para o Cavaleiro das Trevas. E trata-se do inverso: Zorro era o derradeiro filme que os pais de Bruce Wayne assistiram, e, não fosse o vigilante mexicano, o garoto poderia ter escolhido sair como destaque no Municipal de Gotham, vestindo couro e tachinhas, em lugar de espancar psicopatas de cabelo verde.

Poque diabos isso não soa assim tão boa escolha?

Bom, a segunda percepção é dada pelos agentes Pinkerton, que declaram não obedecer limites quando se trata da segurança da América; alguém lembrou que este filme foi feito depois de 11 de Setembro? O lance é esse mesmo: Zorro é um herói engraçadão, estilo Disney, com família e princípios rígidos, e desbarata aqueles templários ultrapassados, liderados por um afetado francês, usando de sua nata habilidade de vencer a despeito de suas próprias estratégias desastradas.

Mas, emoção mesmo, só quando caiu uma das lâmpadas do cinema do CIC em cima de um espectador, que manteve sua dignidade até o fim da sessão, quando foi cercado de curiosos mórbidos. Algo literal ronda o CIC, e não vai ser um naipe de salas do Cinemark, passando blockbusters em salas duplas, que vai resolver isso.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Martin Campbell: A Lenda do Zorro

  1. Ox disse:

    Bûffff, na verdade eu nem precisava ter lido isso pra não querer ver esse filme. Fico só imaginando a trilha sonora… argh! Deve ter algum “momento Titanic”. Não sei se você já percebeu mas qualquer filme ultra-comercial tem um momento-draminha-piegas em que rola uma melodia tocada por um instrumento de sopro, uns violininhos fazendo um fundo mais brega ainda e uma nota pedal no baixo… e tudo soa assim como… NADA! A porra da música não diz nada!
    Se bem que por outro lado até que eu assistiria ao filme. O cavalo deve ser engraçado, ah, e ainda tem a égua, a mocinha!

  2. fabito disse:

    “… trocaram o latitude pela videoteca …”

    genial, hahhahaha!

  3. Juliana disse:

    Gostaria apenas de parabenizá-lo pelo blog. Fui instantâneamente cativada por ele. Encontrei-o ao procurar mais informações sobre o filme “Carnages”, pelo qual também me apaixonei. Concordo plenamente com sua afirmação sobre ele. Abraço.

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