Kim Ki Duk: Casa Vazia

Casa Vazia

Oh, o drama das expectativas! Quantos não sofrem a tremenda decepção vagarosamente construída por elas? E quantos não seguem neste caminho perigoso ao receberem a rara dádiva de uma expectativa bem sucedida, como a deste Casa Vazia?

A sinopse aponta para um tema semelhante ao de Edukators, e isso apenas piora a situação: o filme alemão foi uma bela idéia transformada em uma decepção de dimensões paquidérmicas.

É natural, assim, a desconfiança que me aflige quando Casa Vazia se encaminha da zona segura do modus operandi do invasor de casas para o restante do iceberg, que é justo onde a referência germânica perde o rumo.

Kim Ki Duk, diretor do belíssimo Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera, felizmente, manteve o pulso, e criou outras visões para corroborar uma linha completa no filme. Onde Edukators descamba para o palavrório barato e soluções verborrágicas, o diretor coreano opta por uma inusitada dose de silêncio.

O universo dos protagonistas segue à parte, como se a unidade formada a partir dos dois escapasse aos pobres apelos verbais externos. O ponto-chave do filme é a transição do mundo idealista do rapaz para algo que alguém poderia chamar de realidade. O problema do espectador, caso ele esteja preocupado em tecer considerações técnicas, é distinguir o quanto do mundo invade o universo do casal, ou se a percepção do casal é que contamina o mundo. Este dilema não existe para quem escolhe se deixar levar pela história. Após a transição, é uma resolução pobre querer resolver o roteiro como um quebra-cabeças; melhor fluir com eles em vez de ficar buscando conexões entre as obsessões que vários personagens mantêm em relação ao golfe, por exemplo.

Se for parar para pensar, e dissecar o roteiro, há apenas uma história de amor. Entretanto, há algo de aikidô, algo de fluir como água, e escapar dos tradicionais obstáculos que dão peso a uma história de garoto-encontra-garota. Os obstáculos estão lá, mas nenhum dos protagonistas os enfrenta; eles procuram os círculos, as outras possibilidades, os caminhos ocultos, as chances silenciosas. O ascetismo ao qual o rapaz se dedica em seus exercícios espartanos se complementa no vagar da garota, proporcionando instantes em que o arrepio é inevitável.

Numa cruzada heróica pela recuperação da imagem no cinema, seu ambiente mais propício, Duk retoma o conceito, hoje desgastado e disfuncional, do filme descritivo de um romance, e, como seu protagonista, conserta suas peças em silêncio, e nos coloca diante de um artefato que, subitamente, volta a funcionar. Nossa surpresa é evidente, e duvido que alguém tenha saído da sessão sem uma ou duas idéias daquelas que voam livres.

Casa Vazia é de uma beleza elegíaca.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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6 respostas para Kim Ki Duk: Casa Vazia

  1. Ox disse:

    Nossa, tô vendo que TODO MUNDO assistiu a esse filme! Vou hoje aqui no Cine Lux de Curitiba mesmo, já que não moro em Patópolis…
    Abraço

  2. Juca disse:

    sunday after…

    bueno…
    concordo com 87,32% de tuas idéias…

    comentário juquiano: AMEI O FILME…

    peixo secreto!
    (\_(\
    (= ‘ -‘)
    (,(“)(“)

  3. Juca disse:

    sunday after…

    bueno…
    concordo com 87,32% de tuas idéias…

    comentário juquiano: AMEI O FILME…

    peixo secreto!
    (\_(\
    (= ‘ -‘)
    (,(“)(“)

  4. Juquinha disse:

    A estratégia da samambaia não funcionou!
    huahauhauahauhauahauha!!!
    ABER!
    Irei, linda e poderosíssima, assistir a esse filme no domingão…
    E nem vou me deixar inlfuenciar por suas letras espertas… depois leio tuas idéias… ainda que a tentação seja grande e quase irresistível…
    Beijim!!!
    (\_(\
    (= ‘ -‘)
    (,(“)(“)

  5. Juquinha disse:

    A estratégia da samambaia não funcionou!
    huahauhauahauhauahauha!!!
    ABER!
    Irei, linda e poderosíssima, assistir a esse filme no domingão…
    E nem vou me deixar inlfuenciar por suas letras espertas… depois leio tuas idéias… ainda que a tentação seja grande e quase irresistível…
    Beijim!!!
    (\_(\
    (= ‘ -‘)
    (,(“)(“)

  6. Ian disse:

    É… a expectativa! Realmente, ainda bem que eu aprendi a perdê-las, não só nos filmes, mas em tudo…
    Abraço!

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