Bahmn Ghobadi: Tartarugas Podem Voar

Bahmn Ghobadi é um cara que curte títulos estranhos em seus filmes. Nem sempre eles são relevantes, mas parece que existe uma tradição no Oriente Médio, e ela não se refere a turbantes e mesquitas, mas sim a um certo cinema de câmeras italianas velhas e títulos estranhos. Algum problema? Nenhum.

Tartarugas Podem Voar é triste como poucas vezes eu vi. As lágrimas que verti, elas eram de verdade, pois aquele filha da puta do Ghobadi sabe que existe um universo surreal em algum lugar desértico que ele conhece, e que nós podemos ser culpados por boa parte do que os aflige. Sim, nós podemos.

A solidão toma formas um tanto patéticas quando se mora em um apartamento de subúrbio, trabalhando em um emprego patético, e encontrando pessoas patéticas. Ela, entretanto, explode nossos corações quando se embasa em pessoas que perderam tudo, que caminham sem saber onde devem sentar-se quando pararem, se é que o farão. Pessoas que, não raro, vivem sem um ou dois membros, e não sabem exatamente quais grupos de homens com armas aplaudir.

Tudo é tão confuso, e um rapaz que vê o futuro começa a parecer bem mais interessante do que a televisão que nunca os mostrará exceto como fanáticos tendendo ora ao merecimento de pena das Unicefs, ora ao ódio rancoroso dos comandos Delta de Hollywood.

Ghobadi tem as manhas. Seu filme contrapõe a existência miserável aos divertidos paradoxos que ali se formaram, e mantém o espectador num estado de transe que nos mergulha sem receios nas sensações impressas na película, como a criança cega que sorri, e nos rouba o fôlego enquanto ri no meio do desolado campo de minas.

Satélite é o nosso protótipo de nerd médio-oriental, e nos carrega com sua liderança. Ao seu redor, órfãos dickensianos o ouvem e o amparam, pois nada mais resta. Quando vislumbra a beleza inebriante da perdida Agrin, é como se este universo novecentista, do romantismo como esacapada mórbida ao sonho, se convertesse em um panorama revisto de Giger, como o que se vê nas escarpas de onde a menina enxerga seu futuro em suas tentativas de deixar tudo para trás.

O Oriente Médio é pintado como um beco onde se despejam todas as bugigangas que o Ocidente bonzinho já considera obsoletas, como as dezenas de canais que dizem de tudo, menos o essencial: quando a guerra começará? Tudo se envolve em uma névoa apagadora, em um pesadelo disfuncional como os peixes carregados de truque que Satélite recebe.

Para eles, interessa. O arremedo de guerra em que nos metemos não possui os percalços possivelmente aventurosos das escaramuças armadas, e nos dedicamos ao tédio, em compensação. Os dias acabam. As cínicas chamadas de jornal nunca mostrarão que existem humanos que são diferentes de nós. Existe apenas o medo. Deles.

Fazia que eu não via um filme assim doído.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Bahmn Ghobadi: Tartarugas Podem Voar

  1. Pingback: Osama e Cidade de Deus « sinestesia

  2. MM disse:

    Seu texto me comoveu, pela identidade dos sentimentos, pela constatação das nossas limitações frente ao terror do nosso mundo, que nos impõe como natural e artístico sua miséria e torna confusa a bela frase, “distante é um lugar que não existe????… e as tartarugas não se encolhem quando dela nos aproximamos, ao contrário, voam e fazem voar, num vôo mortal.

    Gilvan, você uma das poucas pessoas lúcidas que conheço. Muito bom você existir.

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