Chorão

O legal deste mundo é que tudo pode ser instrutivo. Ou quase tudo, só para ter certeza, e não morder a própria língua tão cedo. Minha experiência, contudo, vem mostrando que mesmo os momentos menos inspirados de criaturas patéticas podem ter sua utilidade. Como diria o Wado, “este samba é para quem tira aprendizado do que também não é bom”.

Felizmente, dia 31 de dezembro apresenta uma conjunção planetária apropriada para a observação dos mais diversos tipos de astros falidos, e seres que se espojam na lama da decadência com um ardor inesquecível.

Se você gostou da apresentação do Paulo Miklos com os Incrí­veis, pode parar de ler por aqui. Ou terei de explicar o que pode haver de útil em um bando de sexagenários babantes, liderados por um ser desprovido de qualquer noção do ridículo, executando um velho sucesso italiano que apenas o Humberto Gessinger teve coragem de gravar.

Vou mudar o foco para uma criatura mais recente, e, ainda assim, um concorrente à altura para o ex-titã, antes que eu desate a comentar o desempenho canhestro do irmão da Sandy, agora tentando convencer como herói das seis cordas nas insípidas baladas da dupla. Vou falar de Chorão, líder da bandícula conhecida pelo nome do implausível filho do famoso personagem da tira Peanuts.

Eu estava assistindo ao show do rapaz, quando meu amigo fez-me atentar para o fato de que as letras da banda são feitas de frases prontas, todas contendo algum aspecto de rebeldia sabor coke light.

Corta para hoje de manhã, no terminal do Rio Tavares, lendo um texto do Leminski sobre Bashô. Ao meu lado no banco de madeira, três seres jovens, dois rapazes e uma moça, desfilando seus vocabulários de forma livre e desimpedida. Qual não é o horror deste que aqui escreve ao observar que os jovens em questão comunicam-se utilizando expedientes quase idênticos ao vocalista da supracitada banda santista?

O repertório de frases padronizadas, obedecido à risca pelos três, deixou-me abismado. Não sei exatamente se é a influência dos treinamentos para tele-atendimento a que muitas pessoas desta idade são expostos, ou se estamos nos encaminhando para um a espécie de ISO9001 de comunicação nivelada pelos parâmetros mais baixos da nossa língua, como se, de repente, passássemos a nos comunicar usando apenas frases daqueles guias rápidos para turistas.

Você deve estar se perguntando o que diabos eu aprendi com o Chorão e com seus jovens seguidores. Pois então, eu também. Pode me ajudar?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Chorão

  1. MM disse:

    Texto bárbaro…estou na mesma fila abismada com fatos similares a esses: alguém pode me ajudar?

  2. caolha disse:

    pelo menos a imagem é interessante.

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