David Cronenberg: A History of Violence

Fato: o cinema do CIC estava passando o filme novo do Cronenberg na terça-feira, e o filme é extremamente tradicional, levando em conta a filmografia pouco convencional do canadense. Num resumo grosseiro, pode-se dizer que poderia se passar facilmente por um daqueles clássicos de Supercine que misturam ação policial, paranóia e família, tudo embalado nos arquétipos visuais que eu voc e todo mundo já viu, incluindo a Tia Clélia, que assiste a esses “filmes violentos” balançando a cabeça sem perder o ritmo do tricô.

Isto deve bastar.

Quem quiser mais, pode seguir no texto.

Dado que Cronenberg é um cineasta, uma segunda leitura deve existir; quem poderia acreditar nos simplismos estéticos de Marcas da Violência? Não, Cronenberg cria uma expectativa a ser preenchida em sensações.

O que fazer, então? Lançar-se em analogias, como dispor a família mafiosa perdida de Joey como o Iraque? Traçar metáforas pomposas, carregando de significados o que pode muito bem ser apenas um momento de descontração de um cineasta? Teve gente que fez isso na imprensa, e teve gente que comprou a idéia.

Marcas da Violência é baseado em um gibi, e isso pode ser comprovado em mais de oitenta por cento dos fotogramas na tela. Seria um erro de transcrição para as telas então?

Os habituais expedientes de Cronenberg estão lá, embora as cenas de sexo não sejam tão bizarras quando se esperava. A claustrofobia está esperando em cada esquina da cidadezinha, e os travelings de câmera são altamente reconhecíveis. É Cronenberg.

Mas porque a festa de clichês na construção da família feliz americana? Eu prefiro entender que seja ironia. Os traços nórdicos do protagonista Virgo Mortensen apontam para isso. O filho perdedor e a quase-namoradinha gótica. A filhota loira que recoloca o prato do pai redimido após limpar sua vida pregressa, novamente admitido no sonho.

A carne está presente. Os assassinados não se esvaem em sangue, simplesmente; eles sofrem mutilação, eles expelem carne em nacos, eles despedem-se de suas juntas e de partes inteiras de seus rostos pela ação do aço e dos punhos. Mesmo quando o sangue toma a frente, é um sangue que brilha na existência gloriosa das poças que marcarão, como maldições, as tábuas corridas de prédios tristes.

Juntando todos esses fatos no liqüidificador, o que vem à tona, após a hélice girar por pouco mais de hora e meia, é um retrato de violência próxima do telespectador, carregada de ironia para com a sociedade que a gerou. Aqui desaparece a coreografia barata de saltos e tiros em coreografias plásticas esvoaçantes. Não há gritos. Não há redenção. Há apenas o pragmatismo do retorno ao desejo primário. Sem questionamento.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Cinema Gringo e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s