Andrew Niccol: O Senhor das Armas

Miolos, eu quero miolos...

Ai, ai, este vai ser dureza. Vamos começar logo pelo que era previsível: Nicolas Cage.

Um dos precursores da Escola de Atores com Paralisia Facial em Hollywood, Cage foi um dos primeiros a exigir um sistema de cotas para inserção de pessoas como ele e Ben Affleck, por exemplo, nos filmes dos grandes estúdios.

O semblante do rapaz oscila entre dois extremos: alcachofra murcha ou marmota tristonha. Nota-se um visível esforço de Cage para efetivamente mover a musculatura facial, e criar expressões diferentes, mas sempre redunda em fracasso. É visível a frustração em seu rosto. E só.

Para completar, Cage não se ajuda. Não bastassem suas limitações dramáticas, ele ainda escolhe seus filmes com improvável incompetência. Particularmente, eu acho que todos os envolvidos na produção de Capitão Corelli, para dar um exemplo, deveriam ser mantidos a quinhentos metros de qualquer um dos apetrechos profissionais que operaram naquela patuscada. E o protagonista deveria receber um castigo muito pior, mas tão ruim que eu não pudesse descrever aqui, mas que envolvesse retirada dolorosa de unhas ou castração por mordidas de uma peixe-boi banguela.

Aliás, peixes-boi têm dentes?

Bom, voltemos ao filme.

Fato: a platéia em geral gostou. O que se passa na tela é uma seqüência de situações entre o documental e o dramático, cujo sentido oculto parece ser conscientizar a patuléia sobre os alarmantes números da indústria de armas, e a destruição que elas provocam.

Como resultado, declarações de indignação por partes de cidadãos repentinamente conscientizados de algo óbvio. “Oh, que coisa horrível!” foi o que mais se ouviu na seqüência de abertura, onde a bala sai da fábrica até chegar na cabeça de uma criança negra em um conflito dos que pululam naquele país. Por aí se mede o nível de alienação da classe média deste país, como pude comprovar ao ver Super Size Me, outra pérola da conscientização tardia.

Numa descrição genérica, Senhor das Armas é como aquelas propagandas contra o uso de cigarros ou de drogas; as pessoas que não fumam dizem para os filhos adolescentes “olha, viu como tu vais ficar?”, e os filhos adolescentes cagam para a patrulha. Se quiserem fumar, vão, e não vai ser uma propaganda besta que vai fazê-los mudar de idéia.

A estratégia geral do filme fura pela propaganda hipócrita, basicamente, mas existem outros detalhes a soçobrar o navio. Um deles é a supracitada incapacidade dramática de Cage. Leto e Hawke, os lindinhos da parada, até que seguram seus papéis sem apelar muito.

Pergunte a um espectador genérico de cinemas sobre o que ele espera de um filme americano, e ele vai te responder “diversão”. Senhor das Armas falha também na diversão. Gastaram um orçamento considerável, e locações excelentes para conseguir um grande conjunto de bocejos.

Poucas seqüências realmente divertem. Uma delas é protagonizada por Leto, desenhando o mapa da Ucrânia com cocaína, e descrevendo a viagem de seu nariz conforme as localidades no mapa. Outra é o pouso do cargueiro sobre a auto-estrada na África, se for relevada a criancinha a poucos centímetros do pneu do avião. Ah, e eu gostei da cena com as hienas, mas, diabos, eu adoro hienas! Se tivessem colocado um número musical com hienas, eu teria adorado.

O restante dos planos não conectam o espectador à história. Passagens como a da rejeição de Yuri pelos pais perdem-se na pobreza de expressão de Cage, e em alguma preguiça do diretor. A direção, por sinal, se esbalda em clichês baratos, e não consegue desenhar uma perspectiva humana da tragédia. Os mortos caem, mas não parece ter existido efetivamente vida neles antes de serem alvejados.

E alguém ainda vai me explicar como passam mais de vinte anos na vida da família de Yuri, e ninguém sequer muda o corte de cabelo.

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Sobre gilvas

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4 respostas para Andrew Niccol: O Senhor das Armas

  1. GC disse:

    Oi, li mais adiante sobre a “pérola da conscientização tardia”.

    Até que gostei quando Michel Moore virou modinha pro povinho de crasse mérdia alienado.

    Morei com uma cabeça-oca que quando eu dizia ODEIO BUSH, ela me chamava de radical. Depois de ver o filminho (ler livros ou ver documentários que não estão na modinha, nem pensar! heheh)até que concordamos em alguma coisa na política.

    Claro que só estou dando um exemplo…mas´It´s all TRUE…abaixo os anarfa como eu e os anarfa pulíticu

    Bjos e não pare de escrever, afinal este é o único blog que visito. Bjos

  2. babs disse:

    o peixe-boi tem dentes, mas só os molares (exclusivamente herbivoro), e é muito solitário. ao contrário das hienas, predadores frageis, andam em bando. eu gosto de animal channel, e daí?
    costumo passar aqui com frequencia, mas fazia tempo que não ria tanto com um texto seu. muito bom mesmo.
    achei que podia ter comentado ainda a saga dor irmão naive representante da inocencia americana,com a sua morte simbolica pela paz mundial. praticamente uma miss kamikaze.

  3. babs disse:

    o peixe-boi tem dentes, mas só os molares (exclusivamente herbivoro), e é muito solitário. ao contrário das hienas, predadores frageis, andam em bando. eu gosto de animal channel, e daí?
    costumo passar aqui com frequencia, mas fazia tempo que não ria tanto com um texto seu. muito bom mesmo.
    achei que podia ter comentado ainda a saga dor irmão naive representante da inocencia americana,com a sua morte simbolica pela paz mundial. praticamente uma miss kamikaze.

  4. idiota disse:

    filmezinho mecânico de ser…

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