Ficção No. 44

Ninguém vai lembrar, e nem mesmo Antônio. Porque haveria alguém de lembrar uma tarde macilenta de fevereiro, quando o carnaval cismava em não chegar, Antônio enxergou as quatro horas e dezessete minutos cravados no visor digital do relógio de mesa, bem ao lado do medidor de temperatura com a coluna de mercúrio e estacada em vinte graus que ele não sabia dizer se eram celsius ou centígrados mesmo que funcionassem.

Antônio enxergou um sinal, onde antes via apenas a mesma hora comum da mesma tarde que o consumia havia já algum tempo.

Alguns poderiam dizer que era apenas o café morno na xícara, que, por arte de um feixe caprichoso de Sol, fazia-se mais quente dentro do que fora. Outros declaravam-se conscientes de que o comportamento dele denunciava sua iminente queda dos quadros da civilidade. Qualquer um dos funcionários ou passantes da pequena firma saberia declarar uma ou duas razões plausíveis para não se surpreender com Antônio saindo pela porta.

Sem levar o anacrônico e empoeirado casaco, que ia de casa para o serviço, e do serviço para casa com uma disciplina invejável.

Seguiu pela calçada até que esta acabasse. Olhou para trás, para o curto pedaço andado, para a indiferença da cidadezinha cansada. Pensou em carimbos, e não conseguiu se animar. Pensou na poeira que faria de seus sapatos celebridades, e seu primeiro passo saiu. Andava sem tropeçar, e a náusea do tédio o atingiu no flanco ao lembrar da expressão vagamente sensual no rosto da secretária, que havia comido em nos baixios de sua auto-estima, meia-idade e cremes fedorentos.

Comprou uma roupa de cachorro. Daquelas que toda criança adoraria ter, mas que nunca usaria pelo simples deconforto da corrida.

Era um cachorro preto quando a vestiu pela primeira vez. E apenas houve uma primeira vez, ele lembraria anos depois, caminhando sobre as patas puídas com arremedos de unhas caninas. Tinha uma mancha branca no peito, cuidadosamente assimétrica para parecer um descuido do ser divino que pinta os filhotinhos de cães como as menininhas tanto gostam de imaginar quando vêem ninhadas amontoadas em bacias vermelhas nas vitrines cobertas de serragem de pinus.

Voltou para a cidade ainda na escuridão duvidosa de quando ainda não passou da uma, e não saberia dizer, mesmo que falasse, de onde tirara aquela indumentária.

O primeiro aprendizado foi o de coçar-se. Havia apenas uma forma correta, e esta não deixava as patas da fantasia girarem em torno das mãos e dos pés. Era vergonhoso andar com os veludos pretos das patas claras jogado para as costas das mãos apenas porque quisera ser um cão correto. Seu olhar nunca funcionou. Em vez de buscar o semblante tristonho do vira-lata em busca de lar, ou as peripécias animadas do vira-lata em busca de lar, Antônio apenas dispunha seu mau humor em fatias bem distribuídas.

As crianças começarama a perseguí-lo em suas tardes inúteis. E ele sabia como as tardes daquelas crianças eram inúteis, embora tivesse esquecido porque.

General Souza Furtado. Inicialmente era o nome de um parente importante, embora pouco famoso. Ninguém saberia, dado que ele nada falava, mas era importante o suficiente para que ele precisasse se resguardar do auto-desprezo quando passou a declarar em si mesmo que General Souza Furtado agora era a cidade para onde ia quando as luzes se afogavam nos poucos ruídos de fornicação divertida que a cidade ainda se permitia.

E era, obviamente, mentira. Ele tentava dormir num canto do quarto da jovem prostituta Erlinda, que ficara comovida com o estado dele. Encontrou-o quando saiu para vomitar do enjôo que lhe causara um dos clientes.

Erlinda recebia os clientes sob a discreta, porém tensa, supervisão de Antônio, que se esparramava em um dos cantos, flexibilidade de todo canina de ossos sob o couro artificial da roupa folgada. Por vezes rosnava baixinho, mas não vencia os ruídos da cama. Erlinda, por sua vez, não via apenas o cachorro de fantasia que saía de manhã para vagar e adquirir ainda mais odores pérfidos, mas um animal que havia sido esmagado pelas rodas em uma mudança na sua infância.

Imagina o quanto a mulher sofreu, tadinha, quando o Procópio, turrão e encrenqueiro, sacou do trinta e oito para perfurar a fantasia de Antônio. Sem mais o que fazer, quiseram levá-lo para General Souza Furtado, onde obviamente nunca chegaram, ficando o corpo na fantasia suja num posto de patrulha na estrada velha sob a sombra de um poste quebrado. De telégrafo.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Ficção No. 44

  1. zoiúda disse:

    vistoria rápida. manutenção gratuita. conferindo o acabamento.

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