Curtis Hanson: Em Seu Lugar

Certas pretensses nunca enganam, se é que chegaram a existir. Se não foram apenas o delírio de alguns colunistas de segundo caderno. Aqueles que cismaram em dizer que havia algo para ser visto em In Her Shoes.

O problema básico de In Her Shoes é apenas um pequeno equívoco na classificação. Esta película deveria ser mantida longe das prateleiras dos dramas, e passada para a dos compactos de novela, se é que existe tal classificação. Com o estado atual do público de locadoras, tudo é possível.

In Your Place tem o mérito de ter recebido uma tradução decente para o título. E mais alguma coisa, que eu vou guardar para o final, para me defender de possíveis acusações de apenas pichar este filme.

Procurei em vão algo para diferenciar esta película de outros dramalhões baratos. Da novela das oito. Da novela das onze. Da Malhação. Alguém pode chamar de filme de mulherzinha, mas não seria tão sintético quanto usar “novela”.

Não deu.

Lá estavam o roteiro cheio de furos de aspecto prático, preguiça de roteirista em definir certas soluções para certas necessidades de sobrevivência de boa parte do elenco, contentando-se com empregos estapafúrdios. O final é aquela cacalhada de novela, com casais se conhecendo ou se reconciliando, e só falta o Evandro Mesquita aparecer para levar a Cameron Diaz. Que quase foi levada pelo neto do professor cego, o que deve ter sido cortado pela Censura de Situações Realmente Constrangedoras.

Se o roteiro era uma porcaria, beleza; o pessoal falou bem das atuações, ressaltando uma certa tendência do cinema em dar abertura aos papéis de mulheres fortes. Novamente, nada muito diferente do que o povo do Video Show costuma fazer ao elogiar papéis da Regina Duarte ou da Glória Menezes, ou sei lá quem a próxima unanimidade da meia idade. Talvez aponte para a decadência dos atores masculinos, mas chamar isso de ascensão feminina seria possível apenas na TV Contigo. Diaz é realmente chata como neta burra, Colette tem alguns matizes em sua rejeição física, e McLaine sabe a confusão de ser experiente. E daí?

Odeio dar o braço a torcer, mas há um momento que quase me fez desconfiar de inteligência no filme. O diretor nos brinda com uma sátira do estilo que executa na inserção de um trecho de filme patético onde o narrador se sai com a pérola “Charlotte era do tempo que a sobremesa, e não a vaselina, vinha depois do jantar.”

Ficasse nisso, seria bem divertido, a meu ver.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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