Roman Polanski: Oliver Twist

O Polanski de quem eu sempre lembro é o dono da sorveteria em Canoinhas, e nem tenho certeza de ir tanto assim àquela sorveteria. Aliás, como cidade do interior tem sorveteria!

O Polanski de ontem, entretanto, é o Roman, cineasta estabelecido, curiosamente impedido de entrar nos Estados Unidos.

Dickens é um escritor do século XIX, e um dos grandes expoentes do Realismo naquele país. Eu li Oliver Twist quando tinha vinte e poucos anos, e foi o suficiente dos livros com temática social de Dickens. Depois dele, li ainda As Aventuras de Pickwick, e arriscaria mergulhar em Grandes Esperanças caso o ambiente gótico, que observei em uma adaptação para quadrinhos, se mantivesse.

Chamar a filmagem, por Polanski, de Oliver Twist de adaptação é algo um tanto incorreto; Polanski não adapta nada, ele apenas adequa o livro às telas. O estilo de Dickens se presta ao cinema com facilidade; suas narrativas são lineares, reflexo de boa parte delas ter sido publicada em folhetins semanais. O ambiente decadente presente na época facilita ainda mais o trabalho, provendo o diretor de fotografia com dezenas de tons de marrom e cinza para encher de sépia a tela.

E sabe quem vai amar este filme? Seus pais, principalmente se eles forem metódicos, daqueles que gostam de filmes fiéis ao livro que os originou. De onde eu estou, enxergo esta tendência torcendo meu nariz; o cineasta é alçado à condição de artesão refinado e cuidadoso, mas o artista ainda é o escritor.

Outra instituição a ficar feliz com este filme é o Sindicato Britânico de Atores Idosos; há velhos de todos os matizes e idades, desde governantas boazinhas a velhacos repletos de pigarros. Ben Kingsley rouba, previsivelmente, a cena com seu Fagin de modulações intensas, inclusive em seus paradoxos de comportamento, cujo ápice é atingido na cena antes da execução.

As agruras veladas, tão típicas de Dickens, estão presentes. O relacionamento de Bill e uma das agregadas de Fagin apenas sugere o aspecto sexual, por exemplo, e nem sugestão há de traços homossexuais dentro do grupo de meninos em fase de transição hormonal.

E fica o lembrete: Dickens exige um sorvete aplicado à testa nos livros da fase de maiores preocupações sociais. Ainda que seja verdade, o que se coloca muitas vezes é exagerado e picaresco, como Polanski mostra sem tirar nenhum detalhe.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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