Chico Buarque: Benjamim

eu achei engraçado, ok?

Tem dias em que eu deliro, e penso que Chico Buarque é o nosso Bob Dylan. Mas fico bem quieto, não conto para ninguém. Se contasse, logo alguém descobre que eu não tenho nenhum disco do Bob ou do Chico, e que conheço a múltipla obra deles apenas de raspão.

Entretanto, sou esperto às vezes, e consigo me tocar sobre coincidências interessantes, como o fato de ambos usarem apelidos diminutivos como nome artístico. Deste espaço de congruências, posso pinçar outra: ambos se meteram a escrever alguns livros.

Ouvi dizer, ou li por aí, que as experiências literárias do Bob são horrorosas. Mas, por Benjamim, pode-se dizer que Chico teve bem mais habilidade.

Existe algo de cinematográfico no texto, e a adaptação para as telas, feita sem maiores modificações, confirma isso. Chico é cuidadoso, amarrando as linhas narrativas dentro num esquema típico de cinema, mostrando a última cena logo de cara, de modo que os parágrafos iniciais são exatamente os mesmos da última página.

Informação: tenho mania de ler a última página de alguns livros quando estou pela metade deles. Sei lá se é saudável, mas eu gosto de fazer.

As inserções do Chico nas entranhas do texto dão algo de estranhamento aos personagens, sem, no entanto, causar perda de fluidez; o passado se comprime na perspectiva, suspendendo o presente por um instante quântico e delicado. Os personagens, neste processo, ficam próximos demais, uma sensação quase desagradável, mas que funciona horrores em nos fazer percebê-los reais.

O romance pode ser lido de um tapa, e eu só demorei por ter intercalado com a tour de force de Palmeiras Selvagens, do Faulkner. Engraçado como o texto cheio de detalhes, embora fluido, remete às canções de compositores brasileiros.

Já reparou como as canções da MPB dificilmente ultrapassam três minutos, e contém, quase sempre, uma densidade absurda de troca de acordes por compasso? Músicos pop ingleses fazem canções de quatro minutos, músicos eletrônicos do continente europeu compõem canções de cinco minutos, e isso reflete no tamanho dos álbuns: quarenta minutos para os brasileiros, cinqüenta para os ingleses, setenta para os europeus do continente.

Isto já está virando uma análise de música pop, mas tu podes arranjar um exemplar de Benjamim, e se divertir: é um bom livro, cheio de pequenos insights e de trama sedutora.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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