A Vida Está em Outro Lugar

O escritor Milan Kundera, nunca canso de dizer, é um cunhador de grandes títulos para livros. Isto não significa que seus romances não sejam bons, mas sua maestria em criar denominações para seus volumes é de tal forma grandiosa que os textos de suas capas fatalmente vencem suas boas páginas internas.

Um dos títulos que mais me impressionam é A Vida Está em Outro Lugar. Neste livro a prosa de Kundera se liberta das excessivas referências à violência com que a Tchecoslováquia foi arrebanhada pelos soviéticos, e concentra-se na magia de um protótipo de escritor romântico fracassando nas cruentas paragens do século XX.

O assunto que me ocupava a mente nesta manhã era distinto, mas o efeito dele levou a este título. Diante das folhas cobertas pela fria chuva que criou poças por todo o quintal, vislumbrei a goiabeira carregada, e sobreveio em minha mente a sensação de um fruto colhido, perfeito, em um dia como este.

Em seguida, dada a abundância com que as goiabas se espalhavam nos galhos, pensei em dividí-las, colhê-las para que servissem ao apetite alheio. Então tive a imagem mental daqueles frutos mergulhando em uma sacola plástica, velha de alguns dias após ter se evadido do mercado, os frutos sendo abraçados pela esterilidade sintética, um certo bafo de espaço fechado, uma certa claustrofobia de elasticidade limitada.

De tal enclausuramento, que pode restar desses frutos senão uma imitação pobre? Que sobrevive da experiência real dos frutos quando eles se afastaram tanto de sua origem?

Assim como as frutas, os animais também são vivenciados como um arremedo do que são. Presos em apartamentos, cães são afastados da terra, dos espaços encharcados, dos espaços poeirentos, restritos, no máximo, ao espaço empoeirado. Incrível que alguém possa admirar-se do fato de que morrem das mortes mais estúpidas, ou que fiquem estressados, impedidos de correr, emitir seus sons naturais. Sobrevêm neles as doenças dos humanos, há mais tempo enfurnados em tal vida estúpida, com o bônus duvidoso do auto desígnio.

Igualmente espantoso é que pessoas consigam encontrar alegria quando percorrem parques zoológicos; apenas a morbidez explica que possam achar graça em animais murchos pelo enclausuramento, prisioneiros de uma curiosidade apaixonada pela facilidade, uma curiosidade que se contenta em admirar um animal sem precisar pensar em seu universo.

De modo mais agudo, o mesmo se sente em circos, onde os animais, além da exposição, sofrem com a tentativa de extrair deles o exótico de seus mundos de origem, com resultados patéticos.

Nós, os seres humanos, caçulas da criação, como foi muito bem colocado pelo Gonzalez em uma tira do Níquel Náusea, abarrotamos este mundo, e colocamos nosso sonho maior em coberturas de monstros de concreto. Dizem que as baratas e os pernilongos não conseguem voar até os andares mais altos dos prédios; o mundo natural se rende à violência do homem, que se separa, não sem doloroso rasgamento, da Natureza. Uma ruptura lenta, muita vezes abafada pela anestesia dos sentidos, que já não percebem os sinais do mundo real.

A Vida não está em sacolas de supermercados, jaulas com barras de aço, apartamentos de andar inteiro; a Vida está em outro lugar, mas parece que perdemos a trilha para chegar lá.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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9 respostas para A Vida Está em Outro Lugar

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  3. Izabel disse:

    É a estratégia da sedução. Um bom nome faz algumas pessoas levarem os livros para casa. Se depois constatam que foi propaganda enganosa, ai problema delas.

    Devias ver os títulos de Murakami: “Kafka on the shore”, “Norwegian Wood”…Não dá vontade de ler?

  4. Turnes disse:

    Devias ler Manoel de Barros. Isso de bicho e homem e planta e palavra. E isso é uma ordem.

  5. MM disse:

    A vida está dentro de nós…de nossa não cegueira

  6. Juquinha disse:

    foi-se o tempo em que cachorro tinha cor e cheiro de cachorro…
    (… esses dias atrás eu vi uma mulé, perto de casa, que trazia um poodle, recém saído do pete-chópis… o coitado estava pintado de azul… e, pasme! O bicho parecia com vergonha daquela cor nefasta…)

    ainda bem que meus dogs ainda são dogs…
    e lugar de dog, gats, e bixos-homi e bixos-muié é na liberdade…

    um dia eles acham o caminho de volta pra casa…

    I hope so…

    beijim!

  7. Juquinha disse:

    foi-se o tempo em que cachorro tinha cor e cheiro de cachorro…
    (… esses dias atrás eu vi uma mulé, perto de casa, que trazia um poodle, recém saído do pete-chópis… o coitado estava pintado de azul… e, pasme! O bicho parecia com vergonha daquela cor nefasta…)

    ainda bem que meus dogs ainda são dogs…
    e lugar de dog, gats, e bixos-homi e bixos-muié é na liberdade…

    um dia eles acham o caminho de volta pra casa…

    I hope so…

    beijim!

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