Wong Kar-Way: 2046

Na contramão do cinema chinês moderno representado por bobagens como Adagas Voadoras e congêneres, o filme de Wong Kar-Way mostra a generosidade de tomadas por outro ângulo. Os enquadramentos narrativos estão em menos de um terço da tela em cinemascope em boa parte das tomadas, e todas as paredes parecem ter vida especial. A fotografia se reinventa a cada seqüência, para encontrar novo vigor nas viradas de uma história nem tão inventiva assim.

E nem precisaria. As reviravoltas do clima retrô para um futurismo antigo revisitado parecem estar menos preocupadas em fazer parte de um roteiro coerente do que em servir aos fetiches do diretor. A mesma estratégia engloba as belíssimas mulheres do elenco, que se revezam nos imprevisíveis gostos do protagonista; aqui Kar-Way parece estar mais interessado nos lânguidos movimentos delas, para alegria do espectador, que assiste a um cinema que borbulha de vida em cada fotograma, como se fosse um monstro de ficção científica prestes a irromper sobre as poltronas da sala de exibição.

O tempo e o espaço confundem-se. 2046 não consegue ser um lugar na minha cabeça, por mais que eu enxergue o número na porta do quarto de hotel. Da mesma forma, as horas, que passam em unidade, dezena, centena, nada me convence de que não sejam efetivamente… horas. E um trem que não é um lugar, que não se move, que não se lembra. Um livro que se escreve sozinho de dentro para fora.

O universo futurista de Kar-Way é uma piada, mas ninguém parece interessado nisso. Sua metafísica transcende observações quando ele encontra uma certa percepção de imagética que eu julgava quase extinta. Suas andróides são imperfeitas de um modo que comove, arrepia, ainda que suas peles sejam imaculadamente sintéticas.

Além e aquém do tempo que o gerou, 2046 não permite ninguém sobre os muros.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Wong Kar-Way: 2046

  1. Arlindo Machado disse:

    falou, falou e – dentro de uma massa de falsa desenvoltura e termos contraditórios – não disse nada.

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