George Clooney: Boa Noite e Boa Sorte

poster

Difícil não exercitar a ironia na abertura de Good night and good luck. Surge o símbolo da Warner Brothers, e ele se desmancha para formar uma outra identidade visual derivada, e a imagem passa a preto e branco. Conceitualmente, inverte o vetor da independência cinematográfica, partindo do grande estúdio para o “cinema independente”. Tell the dummy, Sir, diria um certo comentarista esportivo.

Tirando o acesso inicial de bom-mocismo de Mr. Clooney, o filme mostra-se bem feito. A reprodução da rotina de um estúdio de tevê na década de 50 é meticulosa, e eu realmente amo P&B.

A função do P&B, em parte, é possibilitar uma elegante junção entre as imagens da época e as atuais, que reproduzem os eventos. Assim, o repelente Senador McCarthy aparece em imagens originais, contracenando com um muito bem interpretado Edward R. Morrow. Os depoimentos também são originais, o que mostra-se uma saudável ousadia.

A porca torce o rabo em outro departamento: em sua busca incansável pelo cool e pela correta visão de uma época, o filme é mais chato do que se fosse o documentário cuidadoso a que aspira ser. A direção de Clooney é apenas correta, mas sua atuação, deus, é horrorosa, totalmente fora do clima cinqüentista tão bem engendrado pelo restante da equipe. Frank Langella acerta nas ambigüidades do chefe de Morrow, Robert Downey Jr. está confuso como de praxe, mas nada que comprometa demais. O que fica estranho mesmo é o sorriso estereotipado de Clooney, que deveria fazer comerciais de pasta de dente, e deixar o cinema para quem entende do assunto.

O filme tenta, mas não chega a decolar, e é bizarro que um filme de oitenta minutos consiga parecer tão longo. Existe o fato de que o filme recria um terror que assolou especificamente os Estados Unidos, e que viria logo a assolar a América Latina em outro formato, mas não serve de desculpa.

Tecnicamente, é interessante observar como as legendas brancas ficam uma bosta em P&B, devido ao maior contraste da fotografia.

Sociologicamente, a transição da era romântica da televisão para o lixo que temos hoje. Morrow ainda briga, jogando a toalha no discurso que abre e fecha o filme. Olhando para qualquer tela no ano de 2006, o que se vê é lixo, em todas as modalidades, em todos os canais. A televisão é inútil no seu próprio conceito, amarrado ao anunciante e direcionado a distrair as massas; um empecilho no desenvolvimento humano.

Recado simples: um dos passos, para deixar a bovinice para trás, é desligar a sua televisão. Ou melhor: destrua o receptor, mantendo o vídeo para usar com o tocador de DVD.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Cinema Gringo e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para George Clooney: Boa Noite e Boa Sorte

  1. Juliana disse:

    Finalmente uma crítica construtiva ao filme! Tive a mesma sensação de que esse filme era interminável assim que o assisti. Não consegui ser totalmente cativada por ele. E realmente George Clooney está simplesmente terrível como ator! Até então só havia lido aclamações…José Wilker então só teceu elogios. Continuo acompanhando o blog, desde Carnages, lembra? Leitura obrigatória para mim, parabéns novamente!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s