John Milius: Conan, O Bárbaro

macho pá caraio!

Conan, O Destruidor é um filme altamente repetido nas sessões de filmes velhos, mas eu tive a chance de ver a primeira parte, Conan, O Bárbaro, apenas uma vez. Daquela vez, lembro apenas da roda que Conan cresce empurrando, da torre da cobra, e da morte da companheira do cimério. Do restante, esqueci quase tudo: do culto, da família massacrada, e até mesmo do James Earl Jones! Como alguém pode esquecer aquela cara feia, quase um sapo com maneirismos afeminados, que ficou marcada em nossas memórias como a do pai enlatado de Luke Skywalker?

Tenho de parar de dormir em filmes.

O Bárbaro é superior a O Destruidor em vários sentidos. A primeira parte é a típica produção de Dino de Laurentis, com os cenários grandiosos de papelão, atores semi desconhecidos contracenando com algum figurão decadente no papel de vilão. A segunda parte tem a Grace Jones no elenco, gerando aquele efeito Cúpula do Trovão que, exceto para possíveis fãs da Tina Turner, é detestável, e só encontra paralelo, segundo o parâmetro escrotidão, nos Ewoks do Retorno de Jedi.

Certas passagens do Bárbaro parecem ter sido filmadas em chroma key, mas os efeitos, em geral, são de artesanato criativo e convincente, usando ângulos fechados e cenas escuras para tornar a coisa toda verossímil. Esta é uma lição que os atuais filmes de ação, com seus efeitos computadorizados exibicionistas e falsos, deveriam aprender. A cena em que os espíritos estão para levar Conan é representativa da segunda estratégia, enquanto a cobra da torre se enquadra bem nos ângulos maceteados.

O roteiro do Destruidor é amarrado em uma história menos longa do que o Bárbaro, o que explicaria sua maior concisão. O Bárbaro tem furos horrorosos no roteiro, e eu vou assistir às cenas extras do DVD para ver se foi problema de edição mesmo, ou se a patuscada já começava no papel. O ponto é que a duração, duas horas e pouco, é exagerada para um filme de ação, embora eu acredite que as pessoas fossem menos ansiosas na época, dando tempo a si mesmas de apreciar personagens e tramas melhor elaboradas do que as bobagens clipescas que abundam por aí.

Falar em interpretação do Schwartza é um pouco de exagero, mas ele é perfeito para a truculência de um cimério que ainda está adquirindo malícia, apesar de sua cara surrada mostrar que ele já havia vivido muito. Jones, em compensação, trabalha muito bem seu Thulsa Doom, fazendo dele um Osho com excelente visão empresarial em plena Era Hiboriana, liderando uma estrutura religiosa da ordem de grandeza de uma Universal da vida.

Hilárias são as saídas que dão para as limitações dramáticas de Schwartza: na passagem da morte da mocinha, o arqueiro, seu amigão, chora um monte, e é inquirido pelo mago sobre a razão, ao que responde que chora no lugar de Conan, O Cimério, que não chorará. Isso que é trabalho de equipe!

O tempo, para completar, foi generoso com o Bárbaro. O Destruidor, mais ousado, usando de efeitos de ponta na época, provoca gargalhadas com algumas de suas soluções técnicas. O Bárbaro, mais feijão-com-arroz, mantém seu charme.

De comum entre os filmes, há o Schwartza nocauteando um camelo, ou equivalente, sendo que em O Bárbaro o camelo nem mesmo provoca a ira de nosso Mister Universo.

O Bárbaro é um filme para nerds, não há como negar; adaptações de quadrinhos são assim. Mas o Bárbaro é para nerds machos, do tipo que repete, depois do filme e usando cabo de vassoura, as coreografias das lutas. As lutas não possuem o CFS (Coeficiente de Frescura Saltitante) das produções pós-Matrix, e isso é uma maravilha! As pessoas sangram em O Bárbaro, e suas cabeças são separadas do corpo em ângulos bastante próximos da realidade. Aliás, a cena em que a mãe do futuro Conan é decapitada constitui um clássico em si! E esqueça piadinhas de personagens secundários: o mago do filme é um cara excêntrico, mas só se mete a gozadinho quando ajuda o arqueiro quando este está para se ferrar.

Para fechar, a trilha. Casando o som com o visual mongólico dos figurinos, as músicas são cuidadas, sem os modernismos sintetizados que ferram com a trilha de Ladyhawke, por exemplo, e pode-se enxergar ali os protótipos de boa parte da música que bandas de nórdicos cabeludos musculosos fazem.

Conan, O Bárbaro, é um marco do cinema de ação.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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6 respostas para John Milius: Conan, O Bárbaro

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  4. Aluísio disse:

    “Osho com excelente visão empresarial em plena Era Hiboriana”,hahaha, no filme Edir Macedo é o inimigo do conan, o dono da multinacional da fé. Bom isso hein.

  5. Guto disse:

    Putz.. Depois de tanto tempo sem passar por aqui, chego com uma resenha do Conan. Considero isso um privilégio, já que Conan, o barbaro, é um filme que está na minha memória e na minha dvd-oteca. 😉
    Agora, que é um filme, nerd/RPGistico não tem como negar. E Por Crom Gilvas, se você precisar de ajuda para virar um NERD Alpha-Omega Classe III plus é só avisar.
    Alias, tenho Conan o destruidor também, mas ainda não consegui tempo para ve-lo.
    Abraço

  6. babs disse:

    posso dizer com orgulho (ou não) que li todos os conans publicados, inclusive as edições coloridas. todos, itens queridos da coleção adolescente de meu pai. bom mesmo é o simplismo das capas: conan, monstro e mulher escassamente vestida, sempre. e, conan mata monstro – conan come a mulher. é simplesmente bárbaro.

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