Luc Jacquet: A Marcha dos Pingüins

belissimo

Duas formas de tornar A Marcha dos Pingüins dolorosamente perfeito:

1. Cortem a pentelha que canta, compõe, e toca boa parte dos instrumentos na trilha. As letras são bobas como as piadas do João Kleber, e as canções soam como pastiches pobres de Goldfrapp complementadas com as tentativas patéticas da tal guria em soar como a Bjórk? Eu disse “Bjórk”? Então! A perfeição poderia dar as caras neste filme com a presença de Sigur Rós e Múm; não consigo imaginar nada mais perfeito para sonorizar paisagens geladas e aves cavalheirescas, quase humanas em seus trejeitos. Grosso modo, eu pegaria o () e colocaria para tocar do começo ao fim do filme, o que nos leva ao segundo tópico;

2. Acabem com a narração ridícula. As imagens são majestosas, e o cuidado tomado para sublinhar as fases da vida dos pingüins deixam tudo muito claro para pessoas com mais de três neurônios em condições medianas de funcionamento. Algum ajuste, como a inclusão de legendas discretas, como aquelas do Arquivo X, contendo datas e localizações, mais pequenas vistas de um mapa esperto, e voilá, não precisaríamos aturar o Antônio Fagundes e a Patrícia Pillar falando as linhas do texto, porque, diabos, aquilo não pode ser considerado uma narração. Quem foi o joselito que teve as manhas de colocar um dos maiores ícones do sexo feminino em menopausa para narrar a história? Só se foi para ilustrar o fato de que há muito mais mulheres do que homens no agrupamento de pingüins, o que se assemelha assustadoramente ao que se vê em um asilo para idosos. E espero não ter de entrar em detalhes sobre a voz do moleque que faz os pingüins quando são novinhos; quero evitar um refluxo de bile, que, na minha idade, pode ser fatal. No cinema, a platéia segurava-se para não ter ataques de riso;

Eu penso que os tropeços deste filme sejam resultado de uma euforia exagerada por conta do sucesso de filmes como Migração Alada, que foi lindo. O diretor e o produtor tiveram uma idéia boa, e macacos me mordam se filmar pingüns e gelo não é uma baita idéia, e se viram, de repente, com aquelas imagens lindas, pedindo uma edição adequada, e perderam o rumo da história.

O resultado? Deus, as imagens continuam lindas, e a edição foi adequada. Aqueles pingüns embaixo da água, disparando e deixando trilhos atrás de si, que maravilha. Os ângulos e as cores são maravilhosos, transmitem uma melancolia que apenas o processo de vida e morte consegue impor.

Nada me tira da cabeça, entretanto, que aqueles pingüins eram treinados. De que outra forma explicar aqueles animais saltando loucamente de furos no gelo para esquiar de peito sobre os planos brancos? E aqueles ovos colocados sobre os pés, a beleza absurda da dificuldade extrema que eles enfrentam para perpetuar sua linhagem? Dá o que pensar aos pais que reclamam de tarefas simples como participar da reunião de pais e professores.

Muitos não entenderam porque eles vão tão longe para ter filhos, e a hipótese de puro masoquismo chegou a ser considerada. O ponto é que os pingüins buscam um lugar onde o gelo seja firme, e onde os predadores não cheguem facilmente. Se ficassem perto do mar, aquelas gaivotas, que extraíram vagidos de horror da platéia, deixariam a neve rubra do sangue dos filhotes.

Interessante é reparar na sofisticação dos mamíferos, melhor equipados para gestações longas. Os pingüins têm de armazenar o alimento processado para os filhotes em seu próprio sistema digestivo, enquanto nós, mamíferos, possuímos as glândulas mamárias nas fêmeas, muito mais práticas do que vomitar dentro da goela dos pimpolhos.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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