Michel Radford: O Mercador de Veneza

bah, vejo fumaça!

Chego ao cinema do CIC, e encontro uma multidão de joselitos usando roupas típicas gaúchas. Aparentemente, vai acontecer um evento regionalista, e eu chego a pensar em como é bonito um povo que mantém suas tradições.

Dura pouco o idílio, pois reparo que os seres enfiados dentro das indumentárias são pateticamente molengas, criaturas do asfalto, que não saberiam por qual lado subir em um cavalo. Não que eu saiba, embora já tenha montado um; na realidade, padeço de alergia a pêlo de cavalo, e não consigo passar mais de dois minutos nas proximidades de um.

Fantasiados de gaúchos, os joselitos envergonham os gaudérios que antes envergaram tal indumentária. A postura se perdeu, a lida se perdeu. Restou bombacha, bota e um bando de bancários sem fibra em uma apresentação de música tradicionalista. Triste.

Mercador

Caracterização é o forte da versão filmada de Mercador de Veneza. Os figurinos são maravilhosos, enchem os olhos, seja pela precisão, seja pela pompa. As putas andam com os peitos de fora pelo Rialto. As gôndolas deslizam pelos canais, e fico pensando em quanto elas são desconfortáveis para os condutores; podiam ter inventado algo mais apropriado, não?

Gostei particularmente do que penso serem citações, na fotografia. O segundo príncipe a cortejar Pórcia  Velasquez de todo, assim como sua comitiva, os penteados bizarros, e a anã que os acompanha. O ponto alto desta percepção se dá no tribunal, com suas luzes de Caravaggio lançando-se sobre os magistrados colocados diante da parece, filtradas pelas janelas e expostas pela poeira fina do ar.

Al Pacino interpreta de forma magistral Shylock, seguindo sobre a linha fina entre o soturno e o picaresco. Mercador de Veneza é considerada uma comédia, o que eu acho, no mínimo, esquisito. Da comédia de Shahespeare guarda apenas o apelativo moral, que massacra Shylock por sua crueldade e sua muquiranice. Vale lembrar da sociedade que emergia das trevas medievais naquela época, e que pedia marcos de ótica brutais como o que se encena ao final da peça, típicos das comédias.

A opção de filmar Mercador de Veneza literalmente leva a certas soluções que ficam difíceis de engolir. A reviravolta do tribunal causa um desconforto brutal pela espécie de misericórdia aplicada pelos cristãos e pela aceitação conformada que Shylock precisa exercitar. O jogo dos anéis também se perde no tempo, sem atualidade.

O roteiro despe a peça de boa parte de seus diálogos, que fariam o público moderno perder logo a paciência com o filme, e se concentra no roteiro da peça, simplista e maniqueísta, visivelmente inclinado a um dos lados. Para a geração televisiva fica digerível, sem maiores percalços à compreensão rasa de quem não gosta de pensar ou deleitar-se com nuances. Uma pena.

Um último comentário cabe ao desempenho de Joseph Fiennes, patético como de praxe. Alguém deve ter considerado que aquela cacalhada executada em Shakespeare Apaixonado era atuação, e o chamou para o papel de Bassânio. Fiennes é didático, desde que não seja seguido. Sua expressão facial seria muito útil para explicar o conceito de inércia a alunos de curso secundário. Penso que ele deveria arranjar um emprego num banco; de repente, ele fica bem de bombachas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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