Fields Of The Nephilim: Primórdios

Em meados dos anos oitenta, o post punk já havia arrefecido. O culto oitentista ao ego corria às soltas pela Inglaterra como se tivesse nascido ali, e não nos Estados Unidos. Maquiagem nos rostos, poses afetadas, eletrônica desvairada.

O Fields of The Nephilim é uma banda que me impressiona pelo planejamento da carreira. Da tosquice amadora dos primeiros registros aos flertes com o progressivismo épico de Psychonaut, parece existir uma linha de pensamento sobre a qual eles apenas desenvolvem um mesmo conceito inicial.

Capa horrorosa!

Trees Come Down se arrasta nos primeiros minutos de dedilhados e malemolência para sair em disparada com direito a bumbo duplo e guitarras espancadas.

Back in Gehena é excelente para ouvir ao volante, com vocais descaradamente copiados de Ian McCulloch no primeiro discos dos coelhos, que os copiou de David Bowie, e eu me pego falando de coelhos no dia de hoje; é a esclerose chegando. Deve ser culpa do saxofonista, que o Carl McCoy mandou para o olho da rua logo depois deste EP.

Darkcell tem as manhas de ser sedutora apesar de, e talvez justamente por, sua lentidão. Sabendo mergulhar em sua imagética, a experiência é recompensadora. Mesmo o saxofone orgiástico, que surge em meio a uma desolação, vale a pena.

Laura é o tipo de coisa que eu deveria evitar ouvir antes de tomar decisões ou pegar uma estrada. Rápida e mortal, para render-se ao clichê.

Dawnrazor

Dawnrazor é o primeiro disco do Fields. Ele ensaia toda a retórica do disco posterior, Nephilim. O segundo disco, como o nome sugere, finalmente encontra os anseios estéticos de McCoy. Nephilim é a versão com arte final dos esboços de Dawnrazor.

Apesar disso, o primeiro disco é cheio de méritos, justamente pelas suas limitações, e pela percepção do projeto imagético em construção. McCoy já mostra sua voz característica, distanciando-se de suas referências mais banais, e mergulhando em seus guturalismos posteriores. Ele solta-se em fraseados mais ricos, o que deve ser também uma função da melhor microfonagem. A visitação a Laura é esclarecedora, seja pelo arranjo, seja pelo vocal.

A dinâmica de duas guitarras é explorada de forma pouco inovadora, ainda que eficiente. O que muda é a sonoridade eletrônica delas, que convive com um baixo mais à frente na mixagem. O conjunto é bem entrosado, soando além da soma das partes.

A abertura remete imediatamente à cena em que os malfeitores esperam Charles Bronson em Era Uma Vez No Oeste na estação do trem. A gaita desenha o clima perfeito para o início desta epopéia.

Preacher Man, Dust e Power são os ápices do estilo que McCoy criou. Guitarras slide, bateria cavalgante, vocais de porta de saloon, letras sobre o deserto e divindades pré-históricas; ver os shows do Nephilim em 86 devia ser uma experiência, no mínimo, interessante. McCoy e seus asseclas vestidos como cowboys decadentes, escorados na tradição gótica de ícones como Poe, sacudindo a poeira falsa de suas roupas, com as luzes e o gelo seco que estavam na moda: êxtase.

Eram tempos anfetamínicos, e a velocidade das canções testemunha isso, assim como as guitarras, apressadas. Mesmo a lenta incursão de Vet For The Insane reflete frenetismo em suas circunvoluções recheadas de ecos e reverberções eletrônicos. Engraçado é que este o tipo de música que eu gostaria de ouvir quando tinha meus quinze anos. Pena que não houvesse, naquela época, acesso a essas iguarias. Viva P2P e seus sucessores.

Ponto final: apesar de uma certa ironia de McCoy, favor não confundir o trabalho do Fields Of The Nephilim com a atual novela das sete. Que, por sinal, vai terminar antes de eu verificar, e escrever mal sobre.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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