Duncan Sheik: White Limousine

À primeira vista, o susto. Como diabos ele foi chamar um álbum de White Limousine? Soa tão estranho que o vivente nem se assusta em ver aquela capa, que lembra uma síntese limpinha do padrão de capas utilizado por rappers e outros seres bizarros mundo afora.

Há algo de Depeche Mode na abertura de White Limousine, quinto álbum de Duncan Sheik. Hey Casanova parece uma escolha estranha para abrir um álbum, mas logo se revela grudenta o suficiente. Sheik modula seu vocal de modo a acentuar o tom de apelo. O resultado final é o equivalente sonoro de uma daquelas bolas de acrílico que se enchem de “neve” quando as chacoalhamos.

Sheik possui as referências mais cool do planeta. Ele é apaixonado por Radiohead, Depeche Mode, Smiths, Gerwshin, Cole Porter. O segundo álbum dele rende duas homenagens óbvias. Em That Says It All, ele junta, graciosamente, Brian Wilson, Jimmy Page, Nick Drake, entre outros, em uma canção espirituosa.
A segunda, A Body Goes Down, vai mais longe e em apenas um foco, Jeff Buckley, clara referência de versos como:

Once in a while
A man comes along
Even his failures were favorite songs
Oh to have made something so unsurpassed
As certain things fall away
So certain things last
A body goes down
In the Mississippi waters
Weighted by a beauty
Afraid of its light
Notify your holy men
Console your sons and daughters

O terceiro álbum, Phantom Moon, é referência óbvia a Nick Drake, que assombra a obra de Sheik de uma forma estranha. Ainda que existam canções a seguir o modus operandi de Drake, é nas entrelinhas de canções nada semelhantes que Sheik mostra sua admiração.

Distantes os tempos de adulação do primeiro álbum, em que Barely Breathing escalou a Billboard com facilidade assustadora, Sheik escorrega em sua estratégia. A linha construída pelos três primeiros álbuns mostrava uma tendência de cada vez maior intimismo, e Phantom Moon apontava para um futuro de gênio obscuro. Sheik, entretanto, deu uma guinada, e lançou o digerível Daylight, em clara oposição ao caminho explorado no terceiro disco.

no mato com duncan sheik

No quinto álbum, as coisas ficam confusas. Sheik ainda é aquele budista de classe média, vivendo dentro de um universo que não foge ao estereótipo Vida Simples. Seus momentos de maior empolgação são como os da faixa-título, com um andamento um pouco mais rápido do que as baladas que ele recheia de cordas, cantando como um crooner de fraque. Nothing Fades, primeiro single do disco, é nesta linha também.

O restante é lento, intrincado. A paleta de Sheik é rica, tanto nas camadas de voz, raramente distantes do bom gosto que se espera dele, quanto nos timbres dos instrumentos, que carregam o ambiente como se fossem espelhos das florestas dos desenhos animados da Disney, cheias de animais fofos, criaturas esvoaçantes, e um certo charme que cisma em querer escapar, um charme talvez produzido demais. E não falo das orquestrações, soberbas, mas do tratamento dos violões e guitarras, muito amplos, criando uma atmosfera de som radiofônico, que encontra um apelo imediato em detrimento de apreciação mais sutil. Sheik não se orgulha de seus defeitos, em suma.

Por outro lado, existe sua crítica dos valores americanos, coisa de que um nativo de New Jersey deve entender com muita facilidade. Ele resvala aqui. Ataca o mundo do rock nos versos de Shopping de uma forma em que o engajamento mostra algo de patético, para usar um termo bondoso. Detratores usariam “hipocrisia”.

A escolha de Sheik é duvidosa. Dado que ele já foi jogado para fora da festinha de MTV e Los Angeles, valeria a pena esforçar-se tanto para manter o apelo pop direto de suas composições? Não seria melhor lançar-se na obscuridade de meia dúzia de fãs em lugar de arriscar-se a ter o filme queimado na linha fina, entre o descartável e o clássico, que ele habita agora? Ouço direto este disco agora, mas tenho algum receio de que ele não sobreviva à semana que vem na minha vitrola mental. O disco de estréia, em comparação, ficou três meses em alta rotação.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Duncan Sheik: White Limousine

  1. Pingback: Duncan Sheik: Whisper House « sinestesia

  2. Nanda disse:

    Talvez você tenha uma música de Emilie Simon (Flowers) no seu computador.
    Mas você tem razão, A marcha dos pingüins merecia Sigur Rós.
    (desculpe não comentar no lugar certo, mas só lembrei disso agora; ouvindo Emilie Simon!)
    Os pingüins já marcharam pra você?

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