Michael Ondaatje: O Paciente Inglês

air space

O ar estofa-se em reverso. Uma dor invisível se insinua pela base dos lóbulos para explodir em miasmas pirotécnicos dentro dos meus tí­mpanos. O avião circula pelo vazio de probabilidades. Não penso mais se devo espancar o cara ao meu lado. Ele bate sobre os assentos dos braços e sobre a bandeija atrás da poltrona da frente. Parece uma criança pré-histórica. Nem penso que os cabelos desmentem; o assalto é forte demais. Em minha cabeça, peço para ele parar com aquilo. O piloto. A pista. A poltrona. As asas. Qualquer um deles parece capaz de fazer parar a dor. Mesmo que para sempre. O taxista acelera. Depois freia. Ele poderia estar intrigado com meu semblante ou com meu silêncio. Quase fico intrigado por ser um molecão dirigindo um táxi. Esqueço dos jatos de gelo seco, porque as piadas não vieram na hora certa, e só agora, com os tímpanos esquecendo-se de doer, é que penso que o Duran Duran merecia cada uma delas.

English Patient

Abaixo de outro avião, o deserto pelos olhos de um homem tão anônimo quanto quis ser. Em um instante tenho certeza. Em outro, não preciso. Ondaatje investe em veios de poesia entremeados a cuidadosas pesquisas. Suas referências cobrem-se de grãos, como ossos que vieram depois.

Seus quatro personagens embalam a história um do outro. Penso na sorte de ter visto apenas pedaços da versão que Anthony Minghella filmou. Sorrio. Fica para outro dia. Fica ondulando em perspectivas, nunca em expectativas.

Guardei o final para outro dia. Hoje. Descobri que não precisava. Não existe montanha abaixo dos pés do homem queimado. Não existe um tiro na vida do sapador indiano. Não existe sonho na vida da menina canadense. Não existe uma direção nos lamentos do ladrão sem polegares. Como poderia?

Delicado, Ondaatje circunda os canteiros das vidas deles com pequenas flores, que assopra, para que encontrem a lama da terra escura encharcada que o escritor não descreve. Elas sabem que devem.

Debruço-me sobre a fantasia que envolve o sapador e sua moto, e as mãos naqueles óculos são minhas.

Ainda sobre as asas, paro um instante para pensar que não, não precisa ser neste momento.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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