Ficção No. 46

i wrapped you inside my coat
when they came to firebomb
the house

lembro de quando ela veio aqui. pela primeira vez. é um tanto vago. é uma lembrança que não tem mesmo uma faceta colorida. não como as que viriam depois. não como aquelas de quais ela nem desconfiava da paleta.

lembro mesmo é de quando ela veio morar dentro do meu casaco. “mas nem está tão frio”. ela olhou como se pudesse mesmo me repreender. eu acreditei. deixei-a entrar. deixei que ficasse no canto sem falar comigo. por dias. depois da semana terminar e recomeçar, arrisquei-me a levantar a aba pesada. ela fingia que dormia. chamaram-me. olhei para o ponto de onde vinha a voz. para saber que não era nada. ao voltar, ela rapidamente fechou os olhos e um sorriso. mas eu não tinha entendido.

lembro disso também. eu caminhava solto. como se fosse real. como se eu pudesse ser tocado. e eu fora tocado. eu podia não acreditar, às vezes, mas cada pessoa que passava confirmava um teorema de cuja existência eu apenas desconfiava. eu era bobo como as plantas e desconfiado como os coelhos.

lembro do dia em que ela virou água. um oceano tomava quando eu acordei sob as árvores da pracinha. eu não estava lá; como poderia? foi estranho porque eu era grande e ela estava sob o meu casaco, e ela cismou em ser o oceano, e eu apenas navegava. que mais podia?

lembro de que ela podia virar, como se diz? ah, “pedras”. seixos que orbitavam meu corpo a cêntimos de toque. rochas redondas que andavam a arriscar-se na fronteira entre ser e flutuar. fechei os olhos como se precisasse imaginar; ela era uma multidão de tudos, e não me deixaria fugir sem que eu concebesse uma percepção muito própria do vocábulo “fascinação”. esqueci-me em mergulhos.

duas da tarde, e eu ainda não consigo esquecer que ela esteve aqui. sob o casaco. onde ela não pesava nada. caminhava como se fosse apenas. agora que ela foi embora, porque diabos sinto este peso imenso que curva meus passos?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Ficção No. 46

  1. Izabel disse:

    Gostei da porta 🙂

  2. Mirian disse:

    …bobo como as plantas e desconfiado como os coelhos…
    Uma delícia, sem dúvidas.
    Abraço!

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