Jay Jay Johanson: Antenna

Jay Jay Johanson surgiu no rastro das primeiras implementações trip hop bem sucedidas. Seu primeiro disco é este Antenna. Johanson é um ser andrógino. Canta como se estivesse sobre um piano com um longo negro cheio de pontos brilhantes. Andrógino assim.

On The Radio é uma canção simples e pegajosa. Três acordes se repetem, e Johanson conta sobre uma pessoa que canta uma música que ele compôs. Engraçado como Kate, a canção seguinte, mantém uma temática pouco diferenciada, mantendo o ambiente, que é o mundo dos discos e das turnês. Em Kate, ele vive num universo de autógrafos, e não resta tempo de vê-la, perdida na inundação das pessoas que o procuram. A dupla de canções revela um auto-referência em doses paradoxais para um iniciante.

‘cause the crowd calls out my name

Kate vive o cuidado de cordas melancólicas, e você pode ver o rosto dela se perdendo em fotogramas em preto e branco. A batida remete ao tratamento melancólico desolado que o New Order instaurou numa certa linha do pop oitentista, uma melancolia pós-processada em amostradores quase vivos.

Cookie é Johanson em sua veia crooner, com direito a cordas poderosas, carregadas de belos ataques, e batida arrastada. Este caminho é o que ele seguirá em seus próximos discos, deixando o popismo imediato para outros. Elegante e conciso, ele a deixa, mas.

i need you,
and this
time is
forever

Assim como Cookie, Opne Up aposta no enfoque Portishead, com alguma variação na solução sônica. De Portishead, Johanson guarda as batidas, as cordas, a melancolia da tentativa previamente desenganada, os scratches dispostos em camadas absurdas nas pontes, os flertes com carros pretos e ternos da máfia em cidades retrofuturistas.

I Want Some Fun é animada como o nome sugere, cheia de espanholismos diversos. Canta-se junto com facilidade, e sem muita vergonha. Automatic Lover, que pode ser aparentada tanto a Kraftwerk quanto a Eurythmics, pode ser mais constrangedora, mas pesa o fiel da balança no quesito “diversão explícita”. Deja Vù, entretanto, é direta demais, e fica boba.

Wonderful Combat é o relato do guerreiro mais Yin que se viu. Ele se entrega porque não existe opção. Em sua cabeça.

will this battle make you mine?

Não há como vencer. O subtítulo da canção poderia ser “Resignado”. 1984 engata, e é como se continuasse, apenas. Elegante, mas não amado. Situação que nem pode ser dita paradoxal. Empírico.

Fecha o disco Tomorrow. O desavisado ouve uma primeira vez, e pode até pensar tratar-se de uma prece pelas realizações em um divisor de águas. Prestando atenção, o que se encontra é um hino à procrastinação. Johanson tem a felicidade de cantar no exato tom entre a crença na esperança de mudança e a certeza de que mais uma vez se empurrará os problemas com a barriga.

Há ainda uma faixa de bônus, mas vais estar pensando em porque diabos não dá um jeito nesta tua vida besta.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Eletronices e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s