Meio Ambiente

dead grass

A empresa onde trabalho certificou-se em ISO14001 no ano passado. Agora temos anúncios em murais, falando de meio-ambiente e do impacto da empresa sobre ele.

Agora, antes do almoço, havia uma história em quadrinhos no mural. Um rapaz caminhava por uma área arborizada, bucólica com borboletas, e resolve chupar uma bala, jogando o papel no capim. No último quadrinho ele está cercado por policiais, viaturas e um helicóptero, em atenção à semana do meio-ambiente.

Não obstante o caráter sorvete-na-testa, comum a tantas campanhas informativas, o que salta aos olhos é o cartesianismo explícito. Este também não é raro, mas esta campanha foi especialmente infeliz, ou feliz, como exemplo de uma visão de mundo bastante difundida.

O rapaz anda pela relva, cercado de animaizinhos silvestres fofinhos. A ruptura mais explícita é a do roteiro, onde o rapaz deliberadamente joga o papel, mas uma ruptura mais discreta impera entre o rapaz e o ambiente ao redor. Aquele espaço não é o dele, ele não pertence à Natureza. Por extensão, a cidade também não pertence à Natureza. Partindo de tal pressuposto, fica fácil entender o descaso pelas ruas, pelas praças, pela arquitetura urbana, e por nós mesmos.

Lembrei de um divulgador do Greenpeace, que falava sobre a importância de conhecer a Natureza, conhecimento sem o qual não existe vontade de preservação. Lembrei do Rogério Skylab falando, no programa do Jô, que não ia salvar as baleias, pois nunca tinha visto uma.

Existe um certo orgulho em ser urbano, aparentemente, como se pudéssemos recortar certas necessidades intrínsecas como seres humanos. Caminhamos pelas ruas asfaltadas, livres de toda aquela carga excessivamente carnal, sobrecarregada de fluidos desagradáveis e rituais absurdos. Vivemos uma apoteose apolínea, iluminista, filosoficamente limpa e de contornos bem definidos.

E somos infelizes.

Apelamos para misticimos de revistas da nova era, arranjamos cachorros e samambaias de apartamento, visitamos os animais infelizes de zoológico, gastamos nosso tempo em passatempos banais, carregamos de tabus o sexo.

Talvez tudo se resolva se certificarmos nossas vidas com um selo ISO14001.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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