Álcool

ê cana véia!

Há um certo texto de auto-ajuda circulando pela internet, e seu teor, basicamente, poderia se resumir a “ele fez porque ninguém havia dito a ele que não poderia fazer”. Não obstante discussões botecofilosóficas sobre o tema, eu me enquadro, por vezes, neste perfil de falar sobre o que não se entende. Tudo por um maior quociente de diversão no planetinha azul.Entre minhas últimas aventuras pedantes, eu me dispus a escrever um artigo para a senhorita Mari, que estava sem tempo para discorrer sobre aspectos econômicos do etanol e relações exteriores. Propus-me a ajudá-la, e meu público, oh, terá acesso a, pasmem, um artigo com fundamentação conceitual! A seguir, texto na íntegra:

A princípio, pode soar como uma ironia a aproximação entre Brasil e Estados Unidos, ainda mais quando é apresentado o seu pivô: o etanol. Demonizado por mais de duas décadas, o álcool, combustível alternativo, limpo e renovável de maior fatia de participação no mercado brasileiro, surge em nova encarnação, gestada nas incubadoras da tecnologia Flex, cuja predominância no mercado nacional só tem como limitador a velocidade de renovação da frota. É este álcool remoçado que atrai a atenção do Presidente Bush e das multinacionais da energia.

Visto pelo lado americano, o álcool é interessante por ser uma alternativa ao inevitável ocaso do combustível fóssil. Ainda que as células de hidrogênio estejam a ponto de entrar em linha de produção, existe ainda o problema da geração básica de energia elétrica, e o álcool é energia renovável, baseada em biomassa, já utilizada nos automóveis americanos sob a alcunha de E85, combustível resultante da mistura de 85% de gasolina com 15% de etanol. A produção local de etanol é baseada em milho, não tão eficiente quanto a baseada em cana.

Outro aspecto interessante da parceria com o Brasil é a proximidade; os dois países ficam no mesmo continente, diminuindo as dificuldades logísticas do transporte. Fechando a conta, o governo do Brasil é muito mais estável do que os governos dos fornecedores convencionais de petróleo. O que faltaria para concretizar o casamento? Diminuição das barreiras alfandegárias para o produto brasileiro; barreiras que não existem, ironicamente, para o petróleo bruto.

Ainda que exista alguma política confusa na matriz energética envolvendo o uso de gás natural veicular, a opção mais adequada ao mercado interno sempre foi o álcool. O passo que faltava era a modificação de parâmetros do motor a gasolina, que foi conseguida com sucesso através da tecnologia Flex, desenvolvida pelas montadoras utilizando equipamentos possíveis apenas com a moderna eletrônica digital e materiais mais adequados ao aumento da compressão nos motores.

O aumento da fatia do etanol, junto com a viabilização de novos campos de exploração de petróleo pela Petrobrás, levou ao nosso estado atual de autosuficiência em combustível. A tecnologia para o plantio e a produção do etanol, assim como a tecnologia Flex, pode ser exportado para diversos países, incluindo os Estados Unidos.

Até agora foram apresentados os aspectos econômicos e energéticos, mas o aspecto mais interessante, ainda que os Estados Unidos não se importem com o Tratado de Kyoto, a longo prazo, é o ambiental. O resultado da queima do etanol é água, e seu manuseio é muito mais simples do que o da gasolina. Seu ciclo de produção também é mais simples, a ponto de existirem projetos de mini-alambiques para pequenas propriedades.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, sustenta que a área de cana plantada no Brasil pode ser aumentada dos atuais 0,6% para 12%, multiplicando por vinte a produção atual. Um maior percentual de combustível limpo diminuiria as emissões mundiais de carbono. Em contrapartida, 12% do território coberto de cana-de-açúcar não parece muito saudável para o meio ambiente, principalmente se levarmos em conta os prognósticos de que a Mata Amazênica terá sido reduzida em 40% da sua área atual até 2050. Tamanha devastação pode ter um efeito negativo, na emissão de carbono, bem maior do que o efeito positivo da queima de combustível renovável.

Além de garantir os aspectos econômicos, pela exigência de redução das taxas de importação pelos Estados Unidos, deve ser levada em conta a realidade do campo no Brasil. O modelo de produção massiva remete aos tempos de colônia, da monocultura que devasta o solo, do produto de baixo valor. O produto resultante dele, para piorar, é de baixo valor agregado, e podem ser geradas distorções como as do Proálcool, quando terras de alto nível no interior de São Paulo, por exemplo, foram usadas para plantar cana com subsídios governamentais, destruindo toda uma estrutura estabilizada de pequenas propriedades familiares. Este enfoque da produção de cana, calcado no paradigma de agronegócio, é adequado para as matrizes multinacionais em detrimento do desenvolvimento sustentado no interior.

O momento é estratégico para o Brasil, que pode utilizar o trunfo de sua tecnologia e de sua localização privilegiada, junto aos trópicos, para garantir melhor qualidade de vida, tanto para o meio rural quanto para o planeta.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Álcool

  1. aluísio disse:

    depois da girafa tu és o maior!
    palmas, palmas, palmas,….

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