Marc Rothemund: Uma Mulher Contra Hitler

Será que o microfone vem me pegar?

A Alemanha é um lugar bastante particular. Lembro-me de uma entrevista de um dos integrantes do Kraftwerk, lá pelos idos de noventa e alguns trocados. Ele falava sobre o impacto da banda na época de seu surgimento. Para o mundo, poderia parecer estranho um grupo vestido em ternos antiquados e fazendo som eletrônico enquanto todo o restante do universo pop se comprazia na ressaca do movimento hippie e nas sonoridades orgânicas que a cartilha riponga pregava.

Entretanto, havia algo mais quando eles eram visto de dentro do país natal. Havia a sombra de Hitler e de certas obras dele. O Kraftwerk glorificava as autoestradas, os computadores, a tecnologia, a identidade alemã numa época em que o trauma nazista ainda estava muito vivo na alma germânica.

Através deste enfoque, quase penso que o sucesso de Uma Mulher Contra Hitler possa ser explicado. Quase.

O filme foi criado dentro dos padrões atuais de qualidade do cinema alemão, que prima pela excelência na captação e nos recursos técnicos aplicadas a ela. Pode-se comentar sobre o bom desempenho da protagonista, e, realmente, ela convence em vários momentos. E só.

A coisa estrutura-se bem nas seqüências iniciais, mas foge claramente ao controle do diretor quando ele se alonga sobre depoimentos, visando demonstrar uma visão interior de Sophie Scholl a partir da percepção dos relatos de testemunhas. Os personagens raramente escapam de uma agoniante unidimensionalidade, seja o interrogador, que arranca os detalhes de Sophie, seja a moça da cela, que se derrama em complacências e indulgências soporíferas, e nem vou falar dos outros conspiradores, que geraram mais de um momento involuntariamente hilário em suas intervenções. E, diabos, ser hilário quando se trata de nazismo só pode funcionar com antas oligofrênicas do calibre de Roberto Benigni.

Agora, gargalhada mesmo eu tive de segurar durante os ataques do avassalador Microfone Psicótico Narcisístico, que cismava em se lançar sobre os atores nos momentos mais improváveis. Cheguei a pensar que tinham contratado o típico Cinegrafista Bêbado de Cenas de Perseguição em Filmes de Terror de Baixo Orçamento, aquele filma os calcanhares da vítima do monstrengo, para segurar a naba do captador de sons. Aquele objeto fálico conseguia quebrar o clima trágico de qualquer cena, pelo menos nas partes em que eu não estava agraciando a platéia com meu inimitável ronco.

Conclusão: O único alemão cineasta que eu entendo é o Tom Tykwer. E não perca seu tempo com esta patuscada. A menos que você seja alemão residente.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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