As Malas de Franz

i see writing people.

Kafka acompanha-me em minhas viagens, percebi hoje.

A primeira percepção disso me ocorreu ainda em minha cama de molas expressivas no Itacorubi. Acordei pelo menos cinco vezes, lançando-me a um marcador digital que não deixava de mostrar alguma hora perdida na madrugada.

Logo após fazê-lo pela derradeira vez naquela noite, embarquei em mais um dos pesadelos de responsabilidade que me atacam quando em véspera de viagem, mesmo que das mais bobas. Desta vez eu acordava e me vestia com uma camisa que mataria meu ídolo Wando de inveja. Penso que até mesmo Elymar Santos ficaria constrangido. Reparei que a minha mala continha um tanto de camisas semelhantes em número adequado para minha estada.

Se erro no estilo, pelo menos no aspecto quantidade de roupas costumo ser eficiente, pelo menos em pesadelos. E talvez apenas neles, pois aqui estou eu no hotel com uma calça de três dias, que deve começar a conversar comigo sobre assuntos triviais em breve. Ou pelo menos me tornar autosuficiente no ato de encontrar o elevador, o que não é tão trivial assim.

O pesadelo de responsabilidade começa com gilvas descobrindo que já são sete horas, e que ele perdeu seu avião. Os mecanismos de auto-censura rodam em retaguarda, enquanto os dispositivos de justificativa, auto-engano e providências rápidas criam uma agenda de resoluções, pois o curso só começa no outro dia, e os laboratórios podem ser conhecidos nos intervalos, ora.

O quarto se dissolve, e vejo os algarismos em cristal líqüido informando que ainda tenho coisa de quarenta minutos para dormir. Acredito que os pesadelos me deixarão se eu fizer uma configuração semelhante à de Stonehenge com meus travesseiros. Deve ter funcionado, pois acordo assustado com o barulho ensurdecedor do pequeno despertador. feladapota.

i see ugly people.

Logo depois é o aeroporto. Um monte de gente genérica e feia. Meu bom deus, porque as pessoas não conseguem ajeitar suas caras, mesmo tendo dinheiro para isso? Não se trata de feiúra, que isso é destino, mas de burrice estampada, uma mediocridade que revira o sucrilhos em meu estômago.

Mas não é o ser humano quem me assombra mais. Paro diante do detector de metais, e ele assume as feições do promotor do juízo final. Sinto que nem o esforço de capturar todas as moedas impedirá que ele vire uma amante velha e aloprada a gritar aos três ventos inocuidades constrangedoras sobre mim, G., o réu que não conhecia tal condição, mas que a assume por zelo.

Mesmo depois dele ter ficado na sala como um portal de uma tecnologia passada, encaro-o, pressinto suas motivações. O vento frio atravessa minhas roupas no trecho entre o embarque e a escada do avião, e esqueço.

i see dead people.

Caminho pelos corredores do hotel, cobertos de um carpete alto que convida a rolar, desde que se aceite o ônus posterior de ácaros homicidas. Eles estão ali, mas não me incomodam. Não rolo, eles não se lançam em mim, e tudo fica bem.

O que me assombra são as portas de serviço. Silenciosas, anônimas, nunca se abrem enquanto estou olhando. Prevejo triciclos e menininhas mortas nos corredores, mas são dois cabelos de cerca de quatro centímetros de comprimento que realmente me fazem deslizar para as desoladas pradarias da noção de que não tenho cabelos de tal comprimento.

Pessoas saem das portas anônimas enquanto estou fora, entram neste quarto, mexem nas coisas com suas mãos silenciosas e seus lábios que murmuram cançães de rádio AM. Esta é a opção boa e legal. Prefiro deixar a outra opção no silêncio, tal qual aquela porta lá fora.

Ainda bem que Kafka só me acompanha em viagens de trabalho.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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