Cia. Dos à Deux: Saudade em Terras D’Água

genial.

O domingo gelado, depois de assistir a Separados pelo Casamento, cuja resenha nem me animarei a escrever, tão ruim a bagaça, reservava surpresas. Enquanto pagava minha conta no Matisse, dei de cara com um folheto que anunciava Saudade em Terras D´água. Eu tinha lido uma reportagem repleta de elogios na Bravo, e ficara muito interessado. Como sempre, a divulgação na Ilha é pífia, e eu sabia em cima da hora apenas. O espetáculo começaria em quarenta minutos no TAC, promoção da Aliança Francesa, então era entrada franca. Pena que tinha de ter pego ingresso até sexta passada… Entretanto, ê Brasil, eita mundo véio sem portera, sô. O povo pega ingresso, não vai, e fica por isso mesmo, e a gente conseguiu entrar nos vazios dos furões. ops.

A peça corresponde às altas expectativas geradas com folga. A montagem minimalista preenche o palco de forma surpreendente, e fornece formas criativas de interação para romper as limitações que poderiam ser impostas pelo silêncio dos atores. O coquetel é amplo: gestos de dança, teatro nô, Buster Keaton, os corpos dos outros atores sendo usados como anteparos ou sugerindo janelas. A seqüência em que o mar se vai ainda arrepia-me enquanto escrevo.

A força expressiva dos atores e da montagem vai de encontro à linha narrativa simples e despojada. Trata-se de êxodo, e dos sofrimentos decorridos da condição de deixar para trás um espaço paradisíaco perdido. Dolorido, muito dolorido, mas poético e poderoso.

Poderoso a ponto de silenciar a patuléia diversa que havia invadido o TAC: clones de personagens de filmes do Godard, famílias com crianças, hippies de liquidação, toda uma fauna que costuma incomodar horrores em teatros civilizados. Exceção para a senhora na fila atrás da minha, que cismava em explicar coisas para as pessoas ao redor; teve um momento em que a velha comentou algo do tipo “agora ela vai se prostituir”, enquanto a menina no palco passava batom, e eu quase disse para ela “a senhora também começou assim?”, mas o ogro em mim estava apaziguado pela moléstia que me detonou o sábado.

Anota aí: Saudade em Terras D´água, do grupo Cia. Dos à Deux.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para Cia. Dos à Deux: Saudade em Terras D’Água

  1. Laura disse:

    Achei dos a deux um saco, chato…isso aí já era, é só afinar a percepção. Essas coisas só agradam a qum tem muita fome, quem já experimentou prantos mais requintados não se satisfaz. Hei, nada pessoal, gostei das coisas que vc escreve

  2. Izabel disse:

    Não esperava que chegasse à província do Desterro :-)Vi no Rio de Janeiro. Muito bom trabalho!

  3. Ligia disse:

    Assisti hoje ao Saudade em Terras d’Água, no Porto Alegre em Cena, e foi um daqueles momentos que, se a gente pudesse editar o tal “filme da vida” que vê quando morre, eu faria questão de incluir.
    Sai em busca de mais informações sobre a peça e cheguei no seu blog. Parabéns, muito bom.

  4. Jefferson disse:

    Mané, coloca no nykyouw o meu e-mail info@brazilianbladesmiths.com.br pra que eu, lentamente, volte a ativa. Não avisa ninguém não.. só joga lá.

    Jefferson

  5. jukka disse:

    APOSTO que ela começou assim assim sim sim!!!

    tua nova casa ficou linda!

    beijux

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