The Divine Comedy: Victory for The Comic Muse

genious.

O título do disco novo de Neil inspira sensações conflitantes. Remeter ao primeiro EP, quando ele ainda dividia as luzes do Divine Comedy com seus amigos nativos de Londonberry, faz minha cabeça oscilar entre as canções derivativas de REM, muito vagabundas, e uma revisão da mítica era representada pela dupla Liberation/Promenade, ápice do gênio do irlandês.

Hannon desistiu de tentar ser diferente do que ele é em Absent Friends, sucessor do duvidoso Regeneration. Absent Friends, entretanto, era inseguro, pecando por excesso de acabamento. Victory for The Comic Muse não; lança-se à alegria e a canções menos alegóricas e mais divertidas.

To Die a Virgin é uma abertura excelente: cativante de cara, letra sobre um assunto que já povoou o imaginário Sessão da Tarde de todos os homens do mundo ocidental, pelo menos. A primeira noite de um homem pode ser um assunto batido, mas Hannon injeta uma graça especial no conjunto melodia-letra, e você vai junto.

Ora, as mães. Mother Dear é simples como a abertura, e é delicioso cantar junto com os banjos e cordas uma sensação também comum a todos nós. Seguem duas canções mulheres maduras, em uma linha mais séria do as duas primeiras. Diva Lady, primeiro compacto, é certeira em seu apelo, enquanto A Lady of a Certain Age, guarda semelhança estrutural com Middle-Class Heroes, de Casanova; melhor prestar atenção nas letras se você quer apreciar a natureza irônica dos libelos de Hannon.

The Light Of Day embala você sobre nuvens de cordas. Os vocais de apoio são algodões-doces sobre a pianola e os violões. Soberba.

Arthur C. Clarke’s Mysterious Worlds faz sentido mesmo para quem apenas leu seus livros no Brasil, e não consigo conter um sorriso com as dúvidas que o jovem Neil tinha ao assistir ao programa. The Plough tem uma orquestração épica e deliciosa, do tipo que te faz atravessar os corredores em poses pomposas, regendo sua própria trupe imaginária de cordas, percussões e metais.

Depois disso, uma delicada viagem de xilofone e tuba pela Itália, seguida de Snowball In Negative, cujo título é mais interessante do que a canção em si, mas aí eu já tive vontade de ouvir To Die a Virgin de novo, e não vou pensar nela.

O registro de Victory for The Comic Muse mostra um artista que já passou de seus áureos tempos, e que agora conhece suas qualidades e suas limitções. Paciência se os tempos loucamente prolíficos se foram: ainda que a quantidade tenha diminuído, e que o ímpeto já não seja o de um garotão, Hannon ainda tem muito o que mostrar.

Como artista, Hannon venceu a ditadura novidadeira que comanda a imprensa musical britânica, e firmou-se como artífice privilegiado de pérolas de bom gosto e criatividade que continuam a me cativar. Sua principal influência, Scott Walker, entretanto, continua a lançar álbuns intragáveis. Uma pena.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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