Jason Reitman: Obrigado por Fumar

Em tempos politicamente corretos, um filme denominado Obrigado por Fumar causa uma rejeição à primeira vista em minha pessoa. Telas de cinema até aceitam lições de moral, mas nem por isso estas últimas devem ser o foco das primeiras. Felizmente, Obrigado por Fumar não é nada disso.

Reitman fez um filme conciso, onde os diálogos são secos e corrosivos, com o perdão do possível clichê. As gorduras de roteiro inexistem, assim como excessos descritivos, que costumam pipocar em filmes críticos, daqueles que repisam detalhes irritantemente. O andamento rápido é um tanto prejudicado pelas legendas, que, muitas vezes, ficam ilegíveis sobre o fundo excessivamente claro.

No espaço de hora e meia, perfeito para uma comédia que não quer te cansar, Reitman espanca meio mundo: jornalistas, lobistas, âncoras de talkshow, modelos, políticos conservadores, veteranos da Coréia e do Vietnã, vendedores de armas, fábricas de celulares. E o faz com uma elegância funestamente divertida ou divertidamente funesta, o que eu ainda não resolvi ainda muito bem na minha cabeça. Ah, este não é um filme sobre cigarros, caso não tenhas notado. Aliás, como apontado por meus colegas de poltrona, nenhum cigarro é tragado pelos atores durante o filme todo.

Nick Naylor,o anti-herói, não pode ser detido, nem mesmo por terrorismo. Ele é o melhor no que faz, e não sobreviveria se não pudesse fazê-lo. A verdade é uma massa de moldar em suas mãos, e você sai do cinema questionando se mesmo a verdade dentro de você é coerente, pelo menos. Situação inconclusiva.

Entretanto, um limite deve existir, e você pode até acreditar, por alguns instantes, que este limite possa ser o filho dele. Neste ponto, Reitman corteja o fracasso, provocando possíveis revoluções de mau gosto apelativo na relação pai e filho. Ele escapa. O filho de Naylor se espelha no pai, seja pela argumentação, seja pela simples herança genética.

Cada personagem tem um espaço bem definido na trama, e suas entradas e saídas se definem pelo conjunto do filme, e não pelo personagem em si. É uma tarefa difícil para o conjunto de atores, mas o elenco está à altura da tarefa. Gene Hackman está bom, sem maiores surpresas, assim como Katie Holmes, de quem não poderia se esperar grande coisa mesmo. Aaron Eckhart está fantástico, com seu sorriso e sua postura de que nada pode pará-lo. E a surpresa agradabilíssima é a presença de Rob Lowe no papel de um agente de cinema hiperativo com pendores pela cultura nipônica em contexto fake; brilhante.

Em tempos de maquiagem eleitoral maciça, Obrigado por Fumar é um divertido antídoto à modorrenta mentirada de debates e horário político.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Jason Reitman: Obrigado por Fumar

  1. fabito disse:

    só não gosto do truque baratíssimo de usar um clichê mostrando-o como tal.

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