Ficção No. 51

dry

Porta lenta. Muito lenta. A porta do prédio demora uma contida eternidade até que eu ouça a batida inicial no quadro, e o subseqüente pigarro metálico da fechadura encaixando-se. Libero-me para caminhar. Até uma nova padaria. Nada contra esta aqui perto de casa. Pão gostoso, até. O lance é que estou parando de fumar. Bolei um jeito esperto para conseguir. Cada dia eu busco os meus cigarros mais longe. Demanda uma disciplina enorme. Sério. Tão sério que continuo fumando. Desisti na terceira padaria. Ora, estava chovendo! Lá estava Simonne. Assim, com dois enes. Admirável. O nome. Podia ser pior. Um alívio encontrar Simonne naquele crachá, e não Cineide, por exemplo. Fora um acidente, dizia ela. A mãe esqueceu, na euforia do registro, do y que deveria estar ali, e o pai não estava lá. Nunca esteve. E nem eu por muito tempo. Novas padarias, você sabe. Deixei os olhos cândidos e obedientes de Simonne. Como tinha de ser. Segui. Ontem foi a da Prestes com a Govinda, ali na baixada onde a gurizada bate bola. Ia direto para a porta sob o luminoso de uma marca de laticínio que não me vem agora. Ao lado de um saco de aniagem, olhava para o muro diante de si, parecia absorto. Uma criança segurava sua mão. Ou ele segurava a mão da criança, não dava para saber. Olhava os tijolos como se adivinhasse uma porta neles. E a criança séria. Percebeu-me no final do instante que dediquei a ele. A pergunta direta. “Sabes meu nome?”. Distante de desejar travar conversa com mendigos célebres, negativei. Antes de voltar a andar, reparei em sua barba. Não era uma barba por fazer, mas não era uma barba feita ainda, não tinha volume para isso. Um amontoado de retalhos capilares de tons distintos tentavam se reduzir a um leque de trás: gelo espalhado, países cinzentos, e retoques bem definidos ruivos. Já caminhando, ouvi “Quem sou eu?”, seguido de uma mão no braço do meu casaco. De volta aos olhos dele, era mesmo amnésia, um esquecimento além da mera condição alcoólica. Saquei a arma, levando-a junto à sua barriga até que ele se encostasse de costas no muro. Olhos arregalados, ele primeiro não entendeu. Depois, suplicou por um instante em silêncio. Diminuí a pressão. Recompôs-se. A criança, curiosa, nada percebe. Ou talvez perceba, não sou eu quem tem de saber disso. Ele inventa uma história, é claro em seu jeito de falar. Bem completa. Nome. Endereço. Nome da criança. Nome da mãe. Nome da rua onde nunca mais viu a mãe. Não confessaria que batia nela, acho. Sorriu aliviado. Sorri também. Não conseguiria sair dali com a consciência pesada de não ter ajudado. Dois passos, caminho. Tateio o bolso, acho a carteira sem cigarros. Volto-me. Ele não está mais lá. Nem a criança. Que deve estar, aposto, sorrindo.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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