Philip Roth: A Marca Humana

A Marca Humana é meu segundo livro de Philip Roth. Comecei com Pastoral Americana, que me impressionou bastante, mas deixou-me um certo ranço de uma certa linha de crítica aos Estados Unidos. Uma linha que se propõe a expôr as mazelas da própria sociedade, mas que, não raro, tropeça em vários problemas.

Existe uma tendência a se esquivar de questões realmente cruciais, lançando-as como resultado de referências culturais, que tomam colorações épicas num imaginário onde o patriotismo exacerbado é a senha do orgulho nacional.

Em contraponto ao protestantismo dominante, as vozes discordantes acabam agindo um pouco conforme os cânones católicos, e se escudam em justificativas ao outro, a este imenso grupo retrógrado de caipiras fanaticamente religiosos que estariam fazendo coisas ruins com o país.

Pela leitura de A Marca Humana, vejo um Roth que se esquiva disso, e “esquivar-se” é o verbo mais adequado. A fronteira é tênue, e Roth tem um diferencial que permite sua adequada diferenciação na imensidão de cinzas que surgem: ele é um grande escritor.

Mesmo quando o assunto ameaça chafurdar no lugar comum, Roth dribla o perigo com habilidade. Um exemplo é a passagem dos veteranos no restaurante chinês, que evoca um espaço narrativo de prazer invulgar, bloqueando a invasão de signos popularescos de toneladas de filmes e seriados que vêm nos alimentando há tanto tempo.

A condução do romance segue uma estratégia de não-linearidade elegante. Roth não propõe uma modernice besta do tipo que cria estruturas cheias de abas e cantos, mas um livro redondo em qual os labirintos se insinuam, cheios de curvas e recônditos. Seus personagens se prestam à dissecação pelo leitor, mas esta carniçaria é toda dele, do leitor, que fica com o prazer de arrebentar tendões, arrancar órgãos, quebrar ossos, enquanto devassa os universos particulares de cada personagem.

A Marca Humana pode entrar em rotas paralelas desnecessárias por vezes, mas apenas para o roteiro, e nunca para o leitor. Sente-se que aquele desvio, aquele complemento ou aquele floreio era uma obsessão do autor, uma necessidade física de lançar as letras ao papel. A apreciação é natural, fluida. Passagens como a da biblioteca com a professora francesa ou as lembranças do boxe podem ser apenas um anexo das razões necessárias ao roteiro, mas somam-se à realização literária de forma inevitável.

Estou guardando as páginas deste livro, devorando a bocados miúdos, com receio de terminá-lo precocemente.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Philip Roth: A Marca Humana

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