Tocando Livros

Vagava pelo centro no sábado de manhã, aguardando ser chamado pelo aparelho devorador de almas, quando deparei-me com uma loja de cacarecos esotéricos na Vidal Ramos. Lembrei de ter visto um livro do grão-mestre Morihei Ueshiba por ali de outra vez, e pensei que seria bom passar aquele tempo ali mesmo.

Pela vitrine, observei a prateleira de budismo e artes marciais, e pareceu-me promissor. Entrei, e dei de cara com o aviso: “Não Toque nos Livros. Chame um Atendente.” Broxei. Mesmo diante de títulos interessantes do Sensei Kishomaru Ueshiba não melhorei. Para completar, logo ao lado tinha uma prateleira dedicada ao calhorda charlatão Osho e suas visões distorcidas da filosofia oriental.

Logo depois, estava na Livros e Livros. Ambiente gostoso, sem elucubrações, sem vendedores invasivos. Em silêncio, as prateleiras se avizinhavam, sedutoras. Edições de poemas, até elas me atraem neste ambiente. As lombadas, lado a lado, encerrando seus mistérios, convocando exércitos de impulsos consumistas dentro de mim, todos devidamente bloqueados pela visão memorizada da pilha de livros que tenho aqui em casa e também da outra disponível no apartamento, todos pedindo minha atenção.

Não adianta: livro é um prazer tátil. O ritual do livro vai muito além de lançar os olhos sobre as letras, absorvendo suas combinações.

Começa pela forma como ele chegou. Um livro nunca chega de forma convencional. Mesmo a compra de um livro tem um charme especial. Mesmo em um aeroporto. Mesmo em uma banca, onde se costuma encontrar apenas títulos de baixo custo de autores tradicionais em formato de bolso.

Tem livro que a gente ganha. Com sorte, ganha-se de um amigo que te conhece bem, e aí são títulos intrigantes, que você não compraria, mas que acabam te envolvendo. Se não, é um título que você compraria, ou que você até já tem, mas existe o prazer de ter mais de uma edição; ser colecionador não é exatamente algo tão mau.

Tem livro que se reveste da oportunidade: liquidações, saldos, descontos, livrarias secretas com preços absurdamente baixos, sebos que receberam o espólio de algum intelectual cuidadoso e de bom gosto. Você acaba comprando aquele livro que nem era tão charmoso.

Tem livro que a gente namora. Livros caros, edições bonitonas, aquela nova tradução do Dostoiévski. O livro fica na prateleira um tempão, ou na vitrine, e fica aquela sensação de traição, de que ele vai te deixar se você não der o passo definitivo.

Existem ainda outras formas de adquirir um livro, e todas têm seu charme. E o ritual mais delicioso é o de retirar o livro da prateleira. O arrepio percorre os braços quase com o mesmo frêmito percebido ao desnudar a última peça de roupa do ser amado durante as preliminares. Existe algo de erótico, com certeza, nos gestos: localizar pela lombada, puxar a parte superior, vislumbrar a capa, segurar nas mãos, observar os detalhes da capa, sentir seu cheiro, sem pressa, até o momento supremo de abrir entre duas páginas, talvez ao acaso, quem sabe pela primeira, pela folha de rosto, com o perfume do papel subindo, enevoando a realidade ao redor do leitor, como um prenúncio do orgástico mergulho nas impressões de outro ser humano.

Lembro agora daquela loja da Vidal Ramos, e penso que eles nunca entenderão a delícia que vivencia o leitor. Os livros naquelas prateleiras nunca deixarão de ser badulaques esotéricos, destinados a mais aparentar do que ser. Uma pena.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Tocando Livros

  1. Realmente, a exoterica da Vidal não é amigável. Mas a Livros e Livros é legal. Costumo tomar um cafezinho por lá.

    • gilvas disse:

      cruzes, eu nem sabia que ainda existia esta livraria! só tenho ido aos sebos na comasa e na joão pinto.

  2. Maricota disse:

    Gostei das referências à minha pessoa.

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