Males de Final de Ano

Este final de ano foi atípico: quando me dei conta, já estava na véspera do Natal, e, vupt, logo era Ano Novo. Sem expectativas dos horrores típicos desta época do ano, sem aquela percepção de que o Grande Sorvete Universal na Testa estivesse pairando sobre nossas cabeças. Ou testas, vai saber…

Penso que seja um sintoma de um saudável alheamento aos eventos da média, o que me deixa extremamente feliz. Estou definindo novas metas de alienação ao mundo estúpido em 2007. Entretanto, duvido que conseguirei me livrar de um aspecto específico das manifestações de final de ano: os fogos de artifício.

Desconheço se este é um traço específico do brasileiro, que ama lançar foguetes barulhentos em qualquer data comemorativa ou evento esportivo. É um costume folclórico que eu coloco no mesmo patamar de imbecilidade que o aprisionamento de passarinhos ou a farra do boi.

Lancei um único foguete em minha vida, e não venham os engraçadinhos aumentar a importância de minhas emissões flatulentas. Foi em um jogo de futebol, eu acho, e omito-me da culpa alegando o consumo excessivo de fermentados de cevada.

O foguete subiu para os céus, e eu não senti nada diferente. Nenhum êxtase de alegria ou sentimento de júbilo confortador. Nenhuma visão viking de vitória, e, diabos, quantos “v” nesta última expressão. Horror, va de retro, Arnaldo Antunes!

Dado que não existe nada de particularmente excitante em soltar foguetes, assim como não vejo nada de prazeroso em aprisionar inocentes aves coloridas, podemos nos concentrar nos efeitos nocivos apenas.

O barulho dos estouros de foguetes é particularmente irritante, e os sustos resultantes, mesmo em pessoas com condições cardíacas normais, não são nada divertidos. Confesso que até gosto das luzes e dos efeitos de certos fogos de artifício, e até me interesso pelos processos meticulosos para a fabricação de tais artefatos, mas o pequeno Torquemada em meu ombro toma proporções monstruosas quando aqueles ruídos estúpidos singram os céus até meus sofisticados tímpanos. São duas as fases:

Antecipação: ouço o silvo da subida do foguete, e começa a contagem estressante até o estouro, que se randomiza dentro de um período de alguns segundos. Evoco imagens de lançamentos mal-sucedidos de espaçonaves e outros projéteis celestes, com ênfase no efeito bumerangue, que leva o artefato de volta a seu lançador, causando queimaduras terríveis, com morte em alguns minutos. Sou um cara civilizado.

Efetivação: minha esperança de que não haja um estouro se dissolve quando pressinto o deslocamento de ar que precede a explosão. Deixo de ser uma pessoa legal, e desejo fortemente que o indivíduo lançador de foguetes seja sodomizado brutalmente por uma multidão enfurecida ou pelo Minotauro, sendo que, neste último caso, o elemento sob tortura deve ter sua nuca transformada em um cinzeiro. Ah, sei lá se o Minotauro fuma, isso é uma fantasia cruel do pequeno Torquemada em meu ombro, lembra?

A pior parte, todavia, sobra para os animais da estimação. Cães possuem tímpanos extremamente sensíveis, e estampidos os incomodam tremendamente. Já observei os cães aqui de casa baixando as orelhas quando uma seqüência de estampidos ocorre. Eles ficam nervosos, sua pulsação se eleva. Para escapar, eles tentam entrar em casa, e procuram ficar perto de nós, humanos, para que os protejamos.

Nanica With Lasers.

Existem exceções, como a Nanica, que mora aqui em casa, e é algo como um pastor alemão de patas curtas, ou “capa-preta rebaixado”, como gosta de chamá-la meu irmão. A Nanica é indiferente a fogos de artifício. Desconfio que ela teve uma vivência pesada enquanto vivia na rua, ou até que tenha sido um cão das forças armadas ou de algum serviço secreto, mas evito formular esses pensamentos em voz alta, dado que ela pode perceber, e enviar estes dados para seus superiores.

O fato é que a Nanica é um ponto fora da curva: cachorros sofrem com foguetes, e isto pode ser comprovado e amenizado. Existem casos de cães que se desesperam, e saem correndo, e se perdem de casa. Soube de casos de morte por ataque cardíaco, e vejo, a cada ano, o sofrimento dos animais aqui de casa a cada comemoração estúpida com foguetes.

O final de ano é o ponto culminante da escalada de burrice. O clima de euforia é geral, e as pessoas começam a disparar foguetes uma semana antes do Natal, e alguns idiotas possuem estoque o suficiente para fazer barulho mesmo na segunda semana de janeiro.

Existem formas legais de comemorar e de se divertir sem usar fogos; cães, gatos, eu e outros animais agradecemos às pessoas sensíveis e inteligentes, que as adotam.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Males de Final de Ano

  1. Ana disse:

    “Desconfio que ela teve uma vivência pesada enquanto vivia na rua, ou até que tenha sido um cão das forças armadas ou de algum serviço secreto, mas evito formular esses pensamentos em voz alta, dado que ela pode perceber, e enviar estes dados para seus superiores.”
    kkkkkkkkkkkkk
    Ai, ai, ai. Só rindo ctgo mesmo.

    Anyways, espero que já tenhas aprendido q na verdade podemos fazer muito pelos peludos com medo de fogos, ensinando-os a ser como a Nanica.
    😉

    • gilvas disse:

      oh, sim, minha mãe usa diversas técnicas para acalmar os peludos, que, infelizmente, não tiveram o mesmo treinamento militar da nanica.

  2. Pingback: Reciclando o Resmungo Anual « sinestesia

  3. Nanda disse:

    “… Nanica […] algo como um pastor alemão de patas curtas …”

    hum… quem inspirou quem?

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