Jeffrey Steingarten: O Homem que Comeu de Tudo

Esta resenha está dividida em duas partes. Para o pessoal otimista e bonzinho, que não gosta de pessoas sendo achincalhadas e maltratadas neste espaço, recomendo a leitura apenas da primeira parte, onde escrevo sob os auspícios da minha experiência com o Sei-Cho-No-Ie. Na segunda parte, minha verve pérfida, alimentada pela leitura de semanários musicais ingleses na década passada, comanda.

Em tempo: minha experiência com Sei-Cho-No-Ie se resume à leitura de uma frase em um adesivo colado ao Corcel II vermelho do meu vizinho em Little Boats City. Sim, isso explica muita coisa.

Steingarten é um escritor competente, e realmente ama comer. Isto faz toda uma diferença. Ele escreve apaixonadamente, e não se furtaria a nomear “filisteu” qualquer um que colocasse a gastronomia fora do rol das grandes artes. Eu valorizo pessoas que se dedicam de forma desapegada a suas paixões, mesmo que elas sejam bizarrices como colecionar badulaques asiáticos ou ouvir pagode.

A paixão carrega o homem, e, quase sempre, sua mulher, por diversas regiões do planeta, sempre buscando aproximar-se de culturas distintas, e desmistificar acepipes exóticos. Ou mistificar, o que pode parecer um tanto contraditório, mas eu poderia expressar-me melhor. Steingarten enche de charme as comidas mistificadas, vertendo o mistério do outro em uma forma de desejo intelectual pela fruição do prazer daquela degustação em particular.

E funciona, acreditem. Eu mesmo deixei um preconceito de lado na semana passada. Devorei três postas de sashimi de polvo. Se isso não for um passo importante para um chato como eu, “esquifoso”, como diria uma tia minha, eu não sei mais o que poderia ser.

Para quem gosta de histéria, é um prato, com perdão do trocadilho, cheio. Steingarten é cuidadoso, pesquisa seus assuntos de forma obsessiva, e busca fatos divertidos sob vários prismas. E não se prende ao culto e erudito, proporcionando-nos diversão em seus estudos intensos sobre a genealogia do catchup, seguidos de sessões de degustação muito bem documentadas.

Agora chega de bom-mocismo.

Steingarten falha em alguns aspectos. Primeiro: ele é americano. Americanos amam estatísticas, e são capazes de justificar qualquer ato por um número de alguma pesquisa. Americanos também acham que o FDA é relevante para todo o mundo, e isso estraga boa parte das piadas. Falta de contexto é algo grave para um escritor.

Os artigos foram originalmente escritos para uma revista, a Vogue. Reunidos em um livro, formaram um amontoado que não se presta a uma leitura contínua, apesar da bem intencionada divisão dos capítulos.

Steingarten não é um escritor. Ele deve ter aprendido o ofício com um jornalista. Resultado? O texto é correto, e competente, como disse há pouco, mas não passa de um texto de jornalista, o que não é grande coisa. E não venham me falar daquelas aberrações de escritores-jornalistas.

Fechando o pacote, uma idiossincrasia minha: tenho horror a frivolidade. Tenho uma grande briga interior entre minha admiração pela alta cultura e meu culto pessoal à simplicidade. Exemplo: certa feita me encontrei folheando o livro dos caras do Queer Eye for The Straight Guy, e me divertindo bastante por alguns minutos. Até que cheguei em uma parte onde o cara fala sobre calças jeans, e sobre como devemos lavá-las a seco para evitar que elas se deteriorem, nossas amadas calças de quatrocentos dólares, ui. Que tipo de vida molenga uma pessoa leva a ponto de não deteriorar suas roupas em seu cotidiano? Roupas estragam-se, ficam detonadas, é um capítulo da realidade da impermanência.

Vejo frivolidade nas palavras de Oscar Wilde, meu sodomita irlandês predileto, mas ele é bom escritor o suficiente para me fazer esquecer deste detalhe. Os caras do Queer Eye não são. Steingarten também não é. Então não consigo aceitar certas dissociações forçadas entre gastronomia e alimentação. Comida ainda é alimento, apesar de, em alguns momentos, a culinária ascender ao posto de arte.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para Jeffrey Steingarten: O Homem que Comeu de Tudo

  1. turnes disse:

    Caro Gilvas, um pouco de história da arte faz-nos entender que a “alta cultura” é a mais frívola invenção pequeno burguesa. E, todos sabemos, uma dose generosa de escapismo separa o chato do encantador.

  2. Nanda disse:

    Como você sai de um livro de receitas disfarçado de alta cultura para uma revista de banheiro do Queer Eye?
    E… quer saber? eu adoro o programa do Queer Eye, ok? Outro dia eles ajudaram a “sociedade dos alces de minnesota”, ou coisa assim. Fizeram um calendário pornô dos presidentes da sociedade pra arrecadar fundos e ajudar pessoas com câncer. Foi muito bonito! E o calendário ficou, esteticamente, artisticamente, risivelmente, divino! (na boa linguagem gay)
    Beijo pra tu! Seu nariz empinadinho!

  3. bina disse:

    quem é essa pessoa que cita queer eye e o que ela fez com meu amigo??

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