Edgar Alan Poe: A Narrativa de Arthur Gordon Pym

Marujo, busque meu copo de uísque!

Poe é o tipo de cara de quem se pode esperar toda e qualquer espécie de morbidez. Ainda assim, certas passagens de A Narrativa de Arthur Gordon Pym surpreendem pelos suplícios sofridos pelos personagens, levando o criador de inventivas histórias de horror a mostrar uma faceta de sadismo inequívoco.

O século era o dezenove, e os oceanos não eram exatamente bulevares encantadores ao fim de tarde em Paris, e Poe não economiza barbaridades ao ilustrá-los. O narrador sofre, junto com alguns colegas, motins, naufrágios, fome, sede, ataques de tubarões, euclausuramento, visitas de barcos fantasmas carregados de seres humanos em estágio avançado de decomposição, e clássicos corvos arrancam olhos e pedaços de carne putrefata. Até o cachorro do cara se volta contra ele depois de uma temporada de privação de víveres básicos.

O que soa um tanto estranho é a virada após o resgate dos náufragos. Bastam dois parágrafos para a história passar dos sofrimentos sobre um barco virado para Pym reclamando da estrutura do barco que os salvou. Interessante observar a evolução dos métodos narrativos, em especial da América, que começou sua história literária bem mais tarde do que a Europa. Poe é um dos primeiros romancistas americanos que merece ser chamado assim, mas sofre as limitações do estilo que dominava o planeta na época.

A Narrativa de Arthur Gordon Pym, exceto pela visão dos detalhes típica de Poe, e por sua habilidade em impor andamentos claustrofóbicos, mergulhando nas agruras negras da alma humana, poderia ter sido escrito por Julio Verne, ou mesmo por um modernizado Daniel Defoe. Suas aventuras ressoam as de Verne, e suas descrições navais devem algo a Defoe.

Percebe-se também que a sociedade tinha as manhas de ser terrivelmente preconceituosa, e não faz tanto tempo assim. Século XIX comendo solto nos Estados Unidos, e Poe fala abertamente sobre comerciar “bugigangas, como espelhos e miçangas, com selvagens aculturados e pérfidos dados à traição e à mentira”, numa demonstração de pretensa superioridade do homem branco que eu imaginava estar restrita aos primórdios das navegações.

Depois do resgate, nossos amigos se metem em uma confusa aventura em busca do continente antártico, descrevendo rotas que eu não consegui, a despeito de vários esforços, nem mesmo de leve compreender. Parece-me que as temperaturas eram um tanto amenas demais para as latitudes onde eles se aventuravam. As descrições dos animais e das relações sociais nas ilhas exploradas podem ser desfrutadas pelo aspecto pitoresco, mas escapam a qualquer rigor científico.

Desligo meu detector de inconsistências, e lanço-me adolescentemente aos prazeres das aventuras inconseqüentes. Isto funciona muito bem nas caminhadas pelas ilhas dos selvagens onde os exploradores encontram provisões enormes de algo conhecido como biche de mer, o que desconheço de todo em minhas ridículas noções de biologia marinha.

Quando estou me divertindo à socapa, lendo rápido pelo suspense das aventuras futuras de Pym e Peters, eis que descubro que meu exemplar da Cosac & Naif veio com o penúltimo bloco repetido, de sorte que não há o último bloco. Poucas coisas podem ser mais decepcionantes do que isso. Talvez um suicídio fracassado possa ser mais decepcionante. Talvez. Não tenho certeza. Só sei que perdi a vontade de terminar este livro, mesmo que eu consiga uma outra edição. Cáspite.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Edgar Alan Poe: A Narrativa de Arthur Gordon Pym

  1. Pingback: Diehl e Donnelly: Devorando o Vizinho « sinestesia

  2. Nanda disse:

    O quê? Cosac & Naify errando assim?
    Alguém será demitido e jogado aos tubarões por isso!
    E pensar em suicídio é uma conseqüência natural à leitura de Poe. Já leu o conto do cara que morre hipnotizado e começa a falar pela língua? woooow… essa é pérfida!
    abraços mórbidos para você,
    Nanda.

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