Tom Tykwer: O Perfume

Coincidência resolverem filmar O Perfume logo após eu ter lido o volume escrito por Patrick Süskind. O livro não me impressionou muito, e me deixou um único questionamento: porque diabos as mulheres gostam tanto dele? Poderia ser a estrutura de folhetim, poderia ser o objeto, perfume? Seria o título, sintético, quase evocando algum livro do Kundera, outro queridinho do público feminino? Seria erro de avaliação deste escriba, coisa que já nem surpreende mais?

Elucubrações à parte, O Perfume atraiu-me ao cinema por um simples e determinante fator: Tom Tykwer. O alemão, que dirigiu os soberbos Paraíso (* e **) e Inverno Quente, é um dos cineastas que pertence ao seleto Clube dos Cineastas que não Desapontaram o Gilvas. Ainda.

Das Parfum não deixou por menos. O livro é estruturado de forma linear, o que não gera maiores dificuldades em criar um roteiro para ele. Tykwer usa o truque de antecipar o início do final para criar um impacto inicial, mas não gera mais nenhuma inversão de tempo, o que é louvável em tempos nos quais o recurso já está saturado.

Falou-se muito da transcrição das percepções olfativas, centrais no personagem. O que Süskind sugere e reitera com texto, Tykwer improvisa com closes na napa do protagonista, cortes rápidos dele para os objetos sentidos, e até que funciona. Se não é uma solução ideal, aproxima-se bastante, e não cansa, como as longuíssimas e bocejantes descrições do livro.

Os cortes também foram saudáveis. Tykwer corta boa parte das cenas da caverna. No original, elas se prolongam exageradamente, e fazem com o que o leitor perca o foco da intenção de Grenouille. Outro corte louvável é o de Grenouille justificando sua aparência maltrapilha por um suposto seqüestro, solução gambiarrada de Süskind. Também não faz falta o cientista que usa Grenouille para provar que a vida se desgosta de estar próxima ao chão. No livro ela é interessante, mas foge à espinha dorsal do texto, e no filme geraria vinte minutos a mais de duração, o tipo de coisa que apenas incompetentes do calibre do atual Tarantino fariam; Tykwer sabe editar seus filmes.

Tykwer soluciona o olfativo, e logo retorna ao visual com a grandiloqüência correta que lhe é peculiar. Seus enquadramentos tiram o melhor do figurino rebuscado, excelente, e seus movimentos de câmera raramente se perdem em divagações desnecessários, sempre sublinhando a trama e sugerindo, de forma sutil, movimentos que exigiram várias linhas do livro para serem descritos. Tudo está a serviço da beleza, com ápices como a fuga de Laura pelos jardins de cerca-viva, onde o verde escuro se mescla às trevas para contrapôr-se de forma deliciosa ao vermelho e ao branco da atriz.

Agora é torcer para ele continuar recebendo orçamentos nababescos como este, e sem perder a mão.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Tom Tykwer: O Perfume

  1. Turnes disse:

    No livro o protagonista é repugnante, no filme um gato. Isso foi hollywood pacas.

  2. Timum@Miami disse:

    Great book.. Thanks

  3. maricota disse:

    Eu gostei muito do livro e me impressonou a forma como Suskind criou outro universo. O filme não deixou a desejar e concordo com teus elogios.
    Beijo, meu gatão.

  4. Kika disse:

    Eu li o livro, mas faz taaaanto tempo… acho que foi quando era uma adolescente chata… E talvez por isso, por ser chata e principalmente por ser adolescente, não consigo lembrar de muita coisa.
    bju.

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