Sobre as Ondas

A vida vem em ondas como o maaaaar. Você já ouviu isso mais de uma vez, seja pela voz do seu autor, Lulu Santos, seja em alguma versão de astro pop ki-suco instantâneo em especial da Globo, seja em versão sapata-moderninha da Itapema FM, seja em algum karaokê em boteco decadente ou festa de empresa. Diabos, como existem apresentações desta música!

Estive pensando nela durante um treino qualquer do mês que vem passando. Observei a gurizada no boteco embaixo do dojo, confraternizando após, ou durante, as aulas, com altos brados e copos e mais copos de marcas diversas de suco de cevada. Difícil não pensar no filho do Radicci, cabeludão, cursando universidade na capital, deixando sempre cabreiro o velho carcamano.

Por vezes a algazarra incomoda as explicações do sensei, ou distrai alguém mais propenso a isso. Em geral, é apenas mais um ruído ambiente, como a súbita e avassaladora chuva de ontem, um alívio no calor senegalesco reinante.

Em certos momentos, vislumbro-os pela janela, e é curioso ver as levas diferentes a cada semestre. Assim como os estabelecimentos, os filhos de Radicci também chegam e também vão. As vidas vêm em ondas, eu parafrasearia. E poderia ir mais longe, puxando de memória abstrações alternativas à idéia da reencarnação, como a idéia de que as vidas são apenas ondas nas praias do Universo.

O que seria arrogância. Estar treinando no mesmo espaço por sete anos, como é meu caso no dojo, pode nos levar a pensar que seríamos uma pedra numa dessas praias onde quebram as ondas das almas, se formos seguir o paradigma da finitude da existência.

Termina-se com mais uma lição de impermanência, este ente a qual sempre podemos acorrer. Sete anos formam um ciclo como qualquer outro, e que, como tal, também se dissolve. Seja diante de ciclos mais longos, como o da existência de uma nação, seja diante de ciclos curtos, mas desencontrados dele, como vemos na canção The Dogs and The Horses, de Neil Hannon, onde os animais, amigos de toda uma vida, vivos ou mortos, retornam a nós no momento de celebrar nossa própria partida.

This life is the best we ever had.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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